Uma Boa Jogada de Marketing

25 de Maio de 2009 @ 13:14 - Geral
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Avaliação: cinco estrelas 1 2 3 4 5 6 7 8 - cinco estrelas 1 2 3 4 5 6 7 8

Não fosse esse filme tão bom, o Dogma 95 não teria dado tanto que falar. Carregar o peso de ser o primeiro filme do manifesto é uma responsabilidade e tanto, nesse caso muito bem cumprida. Apesar de o movimento dinamarquês ser bastante picareta do ponto de vista estético, ele levanta uma bandeira bastante importante, se visto pelo lado da economia do cinema mundial. Criado por Lars Von Trier e pelo próprio diretor do Festa em Família, Thomas Vinterberg, o Dogma 95 bate de frente com o “engessamento” da estrutura cinematográfica, que acabou tornando a sétima arte muito cara e pouco inventiva.
Festa em Família é de fato um filme simples, rodado apenas em uma locação, com uma câmera digital barata (uma DV), pouca iluminação artificial e sem efeitos especiais, o que lhe conferiu uma estética bastante interessante e, o mais importante, extremamente coerente com a dramaturgia do filme.
A câmera solta quase que o tempo todo ajuda muito a dar o tom perturbador pretendido. A textura da imagem é a de um vídeo caseiro, cheia de ruído e sem profundidade de campo, avermelhada nos interiores e azulada do lado de fora, se aproximando do que seria uma filmagem amadora, feita por qualquer um daqueles personagens. Por outro lado, a montagem se assume como uma construção artificial, denunciando um domínio astuto de técnica que supera qualquer carência tecnológica.
O roteiro é, entretanto, a peça principal do filme. No seu aniversário de 60 anos, Helge Klingenfeldt decide reunir um grande número de familiares para a celebração de uma festa, apesar mesmo da proximidade da morte de uma de suas filhas. Autoritário, todos lhe são bastante submissos, o que, porém, vamos percebendo aos poucos. Essa situação está prestes a mudar com o retorno de Christian, filho mais velho e gêmeo da irmã falecida e que havia saído de casa para morar na França.
A narrativa vai nos apresentando os fatos de forma sutil, reconstruindo gradualmente o passado daquelas pessoas, já que, frente a opressão paterna, os personagens são incapazes de se expressar por si mesmos. Aos poucos somos apresentados a assuntos como suicídio, aborto, adultério e abuso sexual, crimes que corroem grande parte daquelas relações. Apesar da riqueza material da família, percebemos porém uma pobreza de mentalidade, já que ninguém consegue deixar a posição de subjugado, além de muitos ostentarem hábitos vergonhosos como o racismo e o nazismo. A denúncias gravíssimas como estupro, pedofilia e incesto, os personagens reagem de forma indiferente, sem saber lidar com atitudes éticas que enfrentariam a autoridade do provedor.
Michael, o filho mais novo, é a figura mais frágil entre todas. Fracassado financeiramente, ele se esforça o tempo todo para se impor diante de seu pai e assim conseguir o lugar de seu sucessor. Michael acata suas ordens sem questionar e age com sua esposa e filhas da mesma maneira autoritária como o pai sempre fazia com ele, seus irmãos e sua mãe. Ele ataca o namorado de sua irmã simplesmente para se sentir bem, afinal, um perdedor como ele, se não é melhor do que seus parentes, pelo menos deve ser superior a um negro. É através dele, entretanto, que temos a virada do jogo: somente quando Michael decide enfrentar o seu pai é que as coisas começam de fato a mudar naquela família.
Por sua estrutura narrativa e até mesmo estética, Festa em Família me lembrou muito dois outros filmes, um anterior, chamado Cerimônia de Casamento, do Robert Altman, e o recém lançado Casamento de Rachel, de Jonathan Demme. Por seus aspectos sociais, Festa m Família parece levantar questões ainda bastante pertinentes, apesar de tão antigas ou absurdas (Josef Fritz que o diga).
Agora, voltando ao Dogma 95 e ao seu voto de castidade, pode se dizer que o filme de Thomas Vinterberg deveria muito bem ser excomungado, já que quebra praticamente todos os paradigmas do manifesto. Ora, se nem o primeiro filme do movimento não conseguiu seguir a receita de bolo, ou melhor dizendo, os mandamentos dessa suposta seita, será que o Dogma 95 realmente existiu ou foi apenas uma jogada de marketing, ao estilo bem hollywoodiano, do diretor pop Lars Von Trier e seus amigos dinamarqueses?

Vinicius Pereira

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