Verdadeiro Herói
18 de Maio de 2009 @ 12:19 - GeralArquivado sob Nossos Críticos, Apoena Frota | Link desta publicação | Enviar por e-mail
Para quem desconhece os verdadeiros motivos da mudança do nome de Classius Clay para Muhamed Ali, é possível que não entenda também porque entre os dois lutadores negros os africanos optaram por Ali, e porque é tão significante sua reafirmação como ser humano.
Nas décadas de 50 e 60 Malcom X esquentou as discussões sobre os direitos dos cidadãos afro americanos, conduzindo um movimento negro que apontava para três caminhos fundamentais: O Islamismo, a violência como método para auto defesa e o Socialismo. Cassius Clay, que em 64 já era vencendor dos jogos Olímpicos e campeão mundial dos pesos pesados, mudou seu nome nesse mesmo ano para Muhamed Ali, assumindo, virtualmente, o posto de principal representante da raça negra em todo mundo, devido principalmente à magnitude do esporte.
Em 1974 Muhamed Ali estava quase se aposentando, porém já havia se tornado uma lenda internacional, por seus feitos no esporte e por seu ativismo politico, enquanto George Foreman era, não apenas uma grande revelação do boxe, mas um lutador espetacular, considerado por muitos como imbatível. Quando Don King, um dos maiores empresários do esporte de todos os tempos, idealizou a Rumble in The Jungle, uma luta entre esses dois fantásticos boxeadores no Zaire (hoje, República Democrática do Congo), talvez não tivesse noção de que aquele se tornaria um evento que transcenderia as barreiras do esporte.
É a partir deste ponto de vista que o documentário When We Were Kings, de 1996, investe sua narrativa. O ponto de vista da raça negra como um todo. Assim, é totalmente justificável a participação de Spike Lee, que além de toda sua contribuição para o reconhecimento do valor dos negros, impregnada em cada um de seus primeiros filmes, quatro anos antes havia adaptado para o cinema a autobiografia de Malcom X. Em seu depoimento Lee alerta para a falta de memória dos americanos em relação a seus verdadeiros heróis. Embalado por essa definição, o diretor Leon Gast (que é branco, por sinal), estabelece desde o início um tratamento heróico para Ali. Um herói controverso e polêmico, cheio de autoconfiança, mas antes de mais nada, um herói. Desde sua chegada ao país africano, Ali dá início a uma estratégia inteligentemente planejada. Suas chances no ring, como todos sabem, não são muito grandes. Portanto, valem mais seus jogos psicológicos.
O longa mostra um George Foreman naturalmente mais calmo, mas que quando provocado é de colocar medo em qualquer um. Chegamos em um ponto onde ficamos em dúvida se o próprio Ali não estaria morrendo de medo. Entretanto, mesmo que fosse verdade, o próprio lutador não o sabia, protegido que estava com suas constantes afirmações sobre sua fácil vitória.
O clima de competição aumenta: Foreman se machuca quando estava treinando nas vésperas da luta, adiando o evento, o que significa um forte golpe na estratégia de Ali. Ficam todos aflitos com seus momentos de dúvida; será que ele vai desistir?
Don King estava preparado. Os artistas que havia chamado para um festival de música distraíram a atenção do público e dos jornalistas, que cada dia mais enchiam os quartos de hotel da cidade. BB King, Miriam Makeba, James Brown, The Crusaders. Todos negros e talentosíssimos. Seria uma festa se não fossem os problemas sociais. Mobutu, presidente ditador do Zaire, resolveu de forma polêmica os problemas de sequestros e assassinatos que começavam a ocorrer na cidade com a chegada dos estrangeiros: Prendeu aleatoriamente cem pessoas, e como diz um entrevistado do filme, sorteou dez e matou friamente. A cidade se tornou instantaneamente uma das mais seguras do mundo.
Em meio a toda polêmica e toda representatividade política do acontecimento, Muhamed Ali sobe ao ring com o apoio de 100% dos africanos. “Ali, mate ele” grita a massa. Mas o herói falastrão tem uma outra estratégia em mente: Foreman precisa provar porque é o atual campeão, e parte pra cima, com uma vontade enorme de acabar com seu oponente, Ali, segura o quanto pode, e provoca a todo momento , cansando seu adversário física e, principalmente, psicologicamente. É quando, finalmente, na primeira brecha que encontra, Ali consegue encaixar alguns golpes, o suficiente para nocautear Foreman. No momento em que a luta termina, é possível ver no rosto de Ali que nem ele acredita no que aconteceu. Muitos choram, outros gritam, é uma cena inesquecível.
No final, mesmo que utilizando uma música que hoje soa datada, Leon Gast acerta em colocar imagens de toda carreira desse grande personagem de nossa história. É possível que alguns o achem arrogante, outros o declaram radical. O fato é que Ali representa o orgulho de um povo sacrificado pela ignorância do ser humano: mais do que um artista, Ali é um verdadeiro herói.
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