O Legado de Ali

17 de Maio de 2009 @ 19:56 - Geral
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Santa ignorância. Pela primeira vez, fiquei realmente feliz por não saber. Que bom ver com olhos novos a emblemática luta entre Muhammad Ali e George Foreman, como se estivesse acontecendo ao vivo. Que bom experimentar a cada segundo o suspense do próximo golpe, torcendo com toda a esperança por Ali, sofrendo a cada virada de Foreman. “Ali, Buma ye”, que bom experimentar essa primitiva adrenalina, esse fogo irracional que nos livra um pouco do peso intelectual e das crises de identidade do dia-a-dia.

Ali é um furacão. Um verdadeiro herói. Enquanto Malcolm X e Martin Luther King dialogavam com o mundo na tentativa de libertar os negros da escravidão mental que ainda sofriam fugindo da própria identidade para imitar os brancos, Ali arregaçava as mangas e fazia do seu esporte um verdadeiro instrumento político de afirmação, sem medo, sem justificativas, sem desculpas, soltando o verbo junto com seus jabs, diretos e ganchos, olhando o inimigo nos olhos, prevendo cada detalhe de sua vitória para torná-la real.

Fico me colocando no lugar dos negros que sofriam a cada dia a repressão social, muitas vezes sem ter coragem de enfrentar o problema, de levantar a voz, fico imaginando o que sentiam vendo aquele furacão lutando, vendo a maneira como demolia a tudo e a todos, como se colocava diante das câmeras, diante do governo norte-americano, sua beleza física, sua juventude, sua pureza de espírito. Fico me perguntando se é possível conquistar qualquer mudança sem radicalismo, sem alguém que chute o pau da barraca e saia xingando todo mundo, exigindo à força um lugar ao sol.

O grande mérito de um documentário baseado em fatos já conhecidos historicamente é conseguir criar suspense. O filme de Leon Gast é um exemplo nesse sentido. Desde o início, somos envolvidos por Ali, conquistados por ele. Ao mesmo tempo, sentimos uma profunda compaixão quando nos damos conta das grandes probabilidades de sua derrota para Foreman, é como se o heroismo de Ali estivesse sendo posto a prova: se ele ganhar, é mesmo o herói que parece ser, se não, que pena, é apenas humano, ainda que seja um grande homem.

As imagens reunidas pelo documentarista são tão raras que não nos assustamos ao descobrir que foi ele mesmo que filmou quase tudo, em 1974, mas acabou abandonando o projeto por conta de alguns processos legais que sofreu por parte dos financiadores do filme. Somente vinte e dois anos mais tarde, quando Ali já tinha sido atacado pelo mal que sofre até hoje, pode finalizá-lo. Aliás, um dos méritos do filme é a maneira como aborda a doença do boxeador, a delicadeza de não exibi-lo em sua fragilidade, de manter seu reinado e deixar intacta a beleza de sua juventude.

Um dos méritos dos americanos é que estão sempre com uma boa câmera nas mãos. Eles têm plena consciência da riqueza da documentação de cada evento. Ainda que um acontecimento pareça não ter importância agora, eles sabem pensar a longo prazo, conhecem o valor do registro e da informação. When We Were Kings só aconteceu porque Gast teve essa visão, ele soube prever que a luta entraria para a história mundial. Talvez o filme seja tão dinâmico porque o próprio Gast não sabia o final da história quando começou a filmar. Como todos os personagens da época e todos os comentaristas esportivos, ele temia por Ali, temia que seu reinado finalmente fosse destruído, ainda que reservasse a Ali a possibilidade da vitória.

O embate Ali X Foreman mostra a transcendência do esporte. Prova que tudo é possível e que, na vida real, nada é exato, previsível ou mensurável. Quando vemos Foreman afundando o saco em seus treinos, quando vemos a diferença de tamanho entre os dois lutadores, pensamos: é impossível, Ali não tem chance.

O verdadeiro heroísmo é a superação das nossas próprias barreiras, da nossa própria dúvida e angústia. Para além da libertação racial e social dos negros, esse foi o legado desse grande lutador para toda a humanidade.

Paula Marchesini

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