Entretenimento
17 de Maio de 2009 @ 14:15 - GeralArquivado sob Nossos Críticos, Rodrigo Frota | Link desta publicação | Enviar por e-mail
O embate é dos maiores de todos os tempos. O campeão mundial de pesos pesados George Foreman lutando no Zaire contra o ex-campeão mundial e ativista político (?) Muhamed Ali. Ambos eram mitos do boxe americano, cada um com seu estilo. A potência de Foreman, contra a velocidade de Ali; a juventude do campeão contra a experiência do ex-campeão; o silêncio de Foreman contra o marketing incessante de Ali. O palco foi armado com muita inteligência por Don king, e os dois lutadores protagonizaram um dos maiores eventos esportivos de todos os tempos. Não apenas pelas condições extra ringue, mas principalmente pelo que se desenrolou ali entre as quatro cordas.
Leon Gast sabia disso e montou “When We Were Kings” com a consciência de que teria duas funções a cumprir com o documentário: trazer informações extras para os que conheciam a história do confronto, e transformar aquela luta em mito para quem ainda não a havia assistido. Sem dúvida alguma, Leon foi bem sucedido em ambas as tarefas.
O diretor tinha em suas mãos uma grande história; bastava saber como formata-la para mitifica-la. A escolha me pareceu acertada: Gast seguiu a ordem cronológica dos fatos e deixou a luta para o final. O filme se desenrola como se estivesse no presente. O espectador assiste as cenas e cada informação que absorve traz mais ansiedade e curiosidade em saber como será a grande luta.
Ali parece mais frágil do que a montanha de músculos que vai enfrentar e, por isso, o público começa a simpatizar e torcer pelo ex-campeão. Paulatinamente o espectador é praticamente forçado a tomar o lado de Muhamed. Era ele o negro que discursava a favor da classe e era ele o cidadão expulso de seu país por se negar a lutar na guerra. Mas Foreman era o favorito, era a potência em forma de lutador. Muhamed Ali não teria chance contra aquela direita.
No entanto, Ali era competidor mestre em deixar o clima favorável. O lutador poderia escrever um livro de psicologia esportiva. Fica muito claro a maneira como ele manipula o cenário para trazer vantagens para si (e a imprensa cai). Em determinado momento parece que o que vai acontecer é a luta entre o gigante branco do mal contra o minúsculo negro do bem (ambos são negros americanos e pouco diferem em relação às suas concepções). Com sentenças muitas vezes etnocentristas, Ali não cansa de afirmar que se sente em casa na África e que a torcida o faria esmagar o seu adversário.
E dessa maneira o documentário cria a atmosfera perfeita para o clímax final (como imagino que tenha acontecido na época do confronto). Uma luta milionária na África entre o bem e o mal. Shows de BB King e James Brown para celebrar a integração(?) entre o primeiro e o terceiro mundo. Um retardo de 6 semanas da data original porque Foreman se machucou treinando. Enfim, a espetacularização de cada mínimo detalhe.
“When We Were Kings” é um grande documentário de entretenimento. Sua edição e montagem seguem um roteiro que manipula o espectador empurrando-o para a emoção. O filme, desde o título, assume Ali como escolhido e privilegiado (nada mais justo, já que o lutador foi um dos maiores de todos os tempos). Ainda assim, mostra traços íntimos da vida do ícone do boxe que fazem qualquer espectador mais atento questionar algumas verdades sobre Ali inquestionáveis, de longe.
A luta é clássica, e se repete quase que mensalmente na ESPN pra quem nunca assistiu. Realmente o maior espetáculo se desenrolou mesmo em cima do ringue. Leon Gast optou por colocar poucas cenas da luta em si em seu trabalho. O resultado é interessantíssimo. Mas acredito que quem não conhece o embate por completo perde muito com a escolha do diretor, porque deixa de acompanhar a crescente ascensão de Muhamed Ali, que rege a torcida, sussurra provocações no ouvido de seu adversário e dá tapinhas na cabeça de Foreman, lentamente desconstruindo física e psicologicamente a muralha imbatível.
Rodrigo Frota
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