Tracy Jordan, a versão do boxe

11 de Maio de 2009 @ 14:28 - Geral
Arquivado sob Nossos Críticos, Vinicius Pereira | Link desta publicação | Enviar por e-mail

Avaliação:

tres estrelas 1 2 3 4 5 6 - tres estrelas 1 2 3 4 5 6

Bom? É … bom, mas não espetacular. Apesar da eficiência em narrar a história épica da luta entre Muhammad Ali e George Foreman no Zaire, o filme é constituído de alguns elementos que, de certa forma, me incomodaram, como, por exemplo, a presença de Spike Lee no documentário. Que diabos ele tem a ver com aquele episódio da vida de Ali? Se esse era um filme sobe aquela luta, por que tantos outros personagens não foram entrevistados? E afinal, desculpem me a ignorância, mas quem é aquela mulher que canta várias vezes durante o filme? Faltou amarrar algumas pontas.
Este é um documentário sobre e para Muhammad Ali. Nada contra a defesa unilateral do personagem, acho que a adoção de um ponto de vista é essencial e inevitável num documentário, porém o dirigismo maquiavélico entre o bom Muhammad e o branco George Foreman parece muitas vezes forçado demais. Não conheço a história toda de Foreman, mas, apesar da intenção do diretor, o simpático vendedor de grill dentro do filme não me pareceu tão diferente de seu oponente em sua personalidade, suas ambições, sua vaidade e mesmo em suas atitudes arrogantes. Tanto que, ao final do filme, a impressão que fiquei de Ali era de um cara extremamente chato, exibicionista, tagarela e egocêntrico, me remetendo muitas vezes ao Tracy Jordan, de 30 rock, aturável somente em um programa de humor satírico.
Porque então esse homem é tão importante para o orgulho negro? Por que um cara tão prepotente e tão ignorante sobre sua própria raça e origem é motivo de tanto alvoroço político, de tanta bandeira? Eu acho que realmente não tenho essa resposta. Por exemplo, pra mim, os motivos de Muhammad Ali sobre a sua deserção na Guerra do Vietnã e quanto a sua “benevolência” em relação à África são, no mínimo, questionáveis. Ao que me parece, ele agiu nos dois casos pensando muito mais em si mesmo do que no coletivo, o que me faz perguntar: Qual o grande feito de Ali para a população do Zaire? Ora, a meu ver, deixar o dinheiro da luta naquele país foi o mínimo que ele poderia fazer depois de aceitar promover o ditador sanguinolento Mobutu. Se Muhammad Ali fez algo mais pelo Zaire depois de 74 o documentário não diz e eu realmente não pesquisei tão a fundo.
Por outro lado, ver Muhammad Ali lutando é algo de tirar o fôlego de tão sensacional. A decisão do diretor de guardar todos os momentos do embate entre Foreman e Ali para o final do documentário foi definitivamente um grande acerto. Esse é o ponto alto da história, seu clímax para o qual a obra vai nos aquecendo durante toda sua extensão. A inteligência que achava faltar em Ali parece aflorar com toda a potência no momento em que ele sobe no ringue. Ele não luta só com os músculos, mas usa de todos os artifícios a que dispõe para vencer o oponente. Ele evoca a platéia e o cansaço de Foreman, o deixando furioso, não só com golpes desrespeitosos, mas psicologicamente o provoca e desestrutura ao sussurrar deboches no seu ouvido. Ao se deixar espancar, Ali deixa que Foreman se esgote, como se dissesse que nem a força brutal (sua maior arma), seria capaz de vencê-lo.
Que Ali estava apavorado era obvio, era possível ler claramente em seu olhar, mas, como disse Che Guevara, numa guerra vence aquele que acredita mais, o que foi provado mais uma vez, já que essa era a luta da vida de Muhammad Ali.
Em “Quando éramos reis” vemos um lutador verdadeiramente apaixonado pelo boxe, um sujeito mais interessado nas conquistas do que no dinheiro (o que transformou Ali, como diz o filme, num dos últimos heróis da nossa época). Intrigante também ver a figura jovem de Don King, já naqueles tempos extremamente ganancioso, fato que nos faz entender a transformação pela qual o esporte profissional sofreu, através inclusive de sua figura, até os dias de hoje. Foi muito bom poder ver que o esporte nem sempre foi “tão” “tão” burocrático, cheio de assessores pessoais e financeiros, o que me encheu um pouco de esperança em relação ao futuro.
Ah sim, já nos momentos finais do documentário toca uma musiquinha extremamente didática e de desnecessária, chamada “we are the kings”, que destoa completamente da trilha sensacional de BB King e James Brown, que se apresentaram no Zaire na mesma época da luta. Um filme que tinha tudo para terminar bem, acabou nocauteado pelo clichê no seu ultimo round.Uma lastima.

Vinicius Pereira

1 Comentário »

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  1. ler todo o blog, muito bom

    Comentário de Jennifer-Tool — 23 de Outubro de 2009 #

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