O Sublime Espetáculo da Guerra
27 de Abril de 2009 @ 04:47 - GeralArquivado sob Principal | Link desta publicação | Enviar por e-mail
Não entendo essa mania de alguns de ter que rotular os filmes, seccioná-los, coisa que hoje em dia está ficando cada vez mais esdrúxula. É o caso de Valsa com Bashir, uma “animação documentário” (pois é, é isso mesmo). O grande alvoroço em torno do dispositivo adotado não passa, entretanto, de uma grande jogada de marketing do diretor, afinal, o estranhamento chama logo a atenção daqueles que acreditam serem esses gêneros conflitantes.
A afirmativa, porém, não tira de forma alguma qualquer mérito do filme em questão, que, aliás, tem seu grande charme e diferencial na estética adotada. A animação permite ao diretor ser extremamente subjetivo, ilustrar sonhos, sensações e delírios de forma que somente uma ficção poderia fazer (porém, provavelmente com menor eficácia). A sereia gigante do filme, ao mesmo tempo símbolo da mão protetora e da mulher desejada, certamente ficaria tosca se feita por um designer gráfico e seu computador de ponta, por exemplo.
A escolha estética pela animação se baseia no depoimento de um personagem que, durante o filme, afirma que qualquer memória pode ser artificialmente bloqueada ou construída pela mente humana. Partindo desse pressuposto, o uso irrestrito de imagens “reais” deixa de fazer sentido para esse documentário, baseado completamente nas percepções e memórias dos sobreviventes da guerra.
O uso do desenho animado confere uma liberdade quase expressionista e onírica ao filme, principalmente pelas cores que ilustram os céus, o mar, os tons de pele e tudo mais. Sem perder o seu compromisso com o real e a relevância do tema retratado, o filme se permite assim abusar de uma linguagem estética completamente inovadora.
A fotografia, ao mesmo tempo realista e artificial, é signo e resumo do turbilhão de emoções que é transmitido pelos depoimentos dos entrevistados. Inspirado em ícones pops, HQ’s, no Noir e mesmo em aventuras épicas como Apocalipse Now, Ari Folman alcança aqui um resultado estético e semântico interessantíssimos. A exemplo de Francis Coppolla, a trilha sonora mistura o pop com o clássico, colocando em embate a ingenuidade e os sonhos de jovens guerrilheiros com a realidade sanguinolenta, porém, sublime (no sentido kantiano) da guerra.
Ora, o que é um indivíduo se não um ser impotente diante da força devastadora do combate armado? Explosões, tiros, mortes e outras situações extremas de um campo de batalha faz o homem refletir sobre a sua finitude, sua pequenez diante do mundo e da insignificância das suas questões terrenas. Por outro lado, a guerra eleva sua consciência, estimula sua inteligência, sua superação, sua capacidade de prever, seu senso de estratégia, seu instinto de sobrevivência, deixando-o completamente à flor da pele.
Talvez por isso tudo é que existem tantos filmes sobre o tema, afinal, bombas, tiros, exércitos e todo tipo de signo de guerra são recursos extremamente espetaculares (em todos os sentidos da palavra), com inegável capacidade de arrancar emoções do público.Valsa com Bashir é um mesmo um espetáculo, uma dança de valsa que enche nossos olhos e ouvidos com seus tiros e explosões, mas principalmente com suas cores, seus traços, movimentos de câmera e transições, com sua trilha e seus efeitos sonoros que orquestram a obra como uma verdadeira ópera.
Ao fim do filme, porém, Ari Folman prefere as imagens documentais do massacre ocorrido naquele ano no Líbano. A crueza dos vídeos nada glamourosos filmados em 82 contrasta com a plasticidade dos desenhos modernos e mostra que o diretor não quis fazer somente um filme pop, mas buscou principalmente chamar a atenção para a crueldade da guerra, seus devastadores efeitos físicos, materiais e mentais sobre aqueles que a presenciaram. Casas e prédios destruídos, pessoas mutiladas, parentes e amigos mortos: o fantasma da guerra é sempre muito forte e pode assolar por muitos anos uma população que já a viveu um dia.
Carmen Sandiego
Eu ao lado de um antigo e luxuoso hotel, abandonado em função da independència e da guerra civil Moçambicana.
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