Foi Por Pouco…

26 de Abril de 2009 @ 17:11 - Geral
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Avaliação: tres estrelas 1 2 3 4 5 - tres estrelas 1 2 3 4 5

Quando um filme é original e, desde a primeira cena, traz um design e uma linguagem completamente inovadores, a tentação de dar cinco estrelas é grande. No caso da animação, talvez, tanto mais, porque ela é um símbolo total, isto é, mesmo os personagens são simbolizados. No caso de Valsa Com Bashir, por exemplo, que, além de animação é um documentário autobiográfico, as pessoas envolvidas se tornam, primeiro personagens e, em seguida, desenhos animados. Portanto, há um romantismo intrínseco a este filme, no sentido de que tudo é poetizado visualmente, que quase deixa passar pequenas escolhas mal-sucedidas do roteiro e da trilha sonora.

Mas a excelente idéia de um documentário animado, ainda que trate de um assunto tão importante historicamente quanto a invasão do Líbano e se valha da sempre cativante questão da memória, não se sustentou até o final. Houve algumas concessões a uma estética vendável ou pop que resultaram em cenas de mal gosto destoantes do que há de admirável no filme, como aquelas em que os soldados se divertem no meio do combate, cantando músicas que incitam o espírito de guerra (já tão desgastadas em filmes americanos do gênero) ou a cena em que um oficial assiste a um filme (ou desenho) pornô na televisão, enquanto reflete sobre a morte de Bashir. São momentos de uma pobreza estética e literária irritante que não servem para nada: não divertem, não contribuem, não emocionam… nada. Como nesses livros best-seller que têm de se encher de partes vazias para cumprir um número mínimo de páginas.

Fora estes imperdoáveis deslizes que serviram mais para encher linguiça e para tentar agarrar a sensibilidade do espectador de uma maneira barata (mostrando os já conhecidos horrores da guerra em um tom pra lá de batido) do que para contribuir ao exercício de memória do protagonista do filme - que é o motor do enredo - Valsa Com Bashir tem momentos inesquecíveis. A cena em que um dos veteranos se recorda de sua experiência no barco a caminho da invasão, quando tem crises de vômito e alucinações, por exemplo. Ou a que outro veterano conta como nadou quilômetros para se salvar.

Transformar uma história de guerra em animação é enriquecê-la inestimavelmente. O que há de brutal em uma guerra é justamente sua realidade arrebatadora e inescapável, sua concretude impenetrável na qual o ser humano perde toda a sua profundidade e torna-se precisamente um soldado, uma máquina com apenas um objetivo: vencer, custe o que custar. Para isso, é preciso atropelar tudo o que constrói sua identidade: sua memória, seus desejos, seus sonhos, suas emoções. Mas esse atropelamento dá uma dimensão fantástica à realidade bruta da guerra. Como é possível que exista tal momento? Como é possível que coisas tão horrorosas e, em grande parte, tão desnecessárias, tenham feito parte de nossa história? O recurso da animação em si é uma resposta. Como se o diretor achasse o filme um recurso real demais, ou de menos, e tivesse de lançar mão de uma maneira mais autoral, mais simbólica de retratar sua experiência.

Por outro lado, é uma maneira de preservar a si mesmo e aos seus companheiros veteranos da exposição que é o registro filmado. Portanto, é um recurso de polidez, uma forma de respeito. Um de seus amigos lhe diz: “pode desenhar à vontade, só não pode filmar”. Além disso, a animação rompe de cara o compromisso com a veracidade dos fatos apresentados. A própria questão da memória faz isso. Todas aquelas histórias são memórias,são tentativas pessoais e limitadas de recordar traumas passados há mais de vinte anos. Memórias são sempre pessoais, sempre um tanto irreais, um pouco como uma animação.

Valsa Com Bashir é um filme nostálgico. Seus amarelos e cinzas melancólicos revelam o indefinível de uma experiência traumática como a guerra. Uma escolha acertada, genial, mas que poderia ter sido mais desenvolvida.

Wall-E

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