Dude, Let´s Make a Movie!!!!
13 de Abril de 2009 @ 03:36 - GeralArquivado sob Principal | Link desta publicação | Enviar por e-mail
Como eu gostaria de ser um dos amigos nerds do Peter Jackson nessa época só para poder fazer parte desse incrível trabalho! O filme é uma obra-prima, um clássico que por si só já me faria equiparar o diretor Peter Jackson ao mundialmente reconhecido George A. Romero! Com uma sinopse brilhante, posso dizer de cara que dificilmente não me encantaria pelo filme: “A.I.D.S., uma bizarra agência do governo neozelandês que caça ETs deve impedir que aliens de uma rede intergaláctica de fast food dominem o planeta Terra.”
Mais do que eficiente, Peter Jackson consegue, abordando uma temática aparentemente banal, ser extremamente inventivo, desenvolvendo um tipo de cinema próprio, super sofisticado e experimental. Trilha, decupagem e montagem formam um tripé que conduzem a história de forma bastante inovadora e autoral (desconto aqui o lado pejorativo do termo, afinal não acredito que nenhum filme seja resultado da obra de uma só pessoa).
Por mais que se pudesse pensar o contrário, a falta de orçamento é, na verdade, um grande aliado da obra e de sua proposta, já que um filme patrocinado pelos grandes estúdios dificilmente teria uma linguagem tão espontânea, livre daquelas regras oitocentistas. Essa suposta “debilidade orçamentária” acabou, paradoxalmente, aflorando ainda mais o lado criativo e artístico do diretor. Assim como Glauber, Godard e alguns outros, Peter Jackon desenvolve aqui um cinema de linguagem, reflexivo, isto é, que faz um movimento que vai de si para si mesmo.
Ora, o que diferencia o cinema de qualquer outra expressão artística se não a sua linguagem própria (e única)? É no corte, na extensão de um plano e de suas associações, na apresentação arbitrária do tempo, na posição e movimento de câmera, na composição de imagem e sons que se constrói um filme. Ser inovador e ao mesmo tempo eficiente nesses aspectos é algo extremamente difícil.
Se por um lado o cinema (ou o audiovisual) é a arte com o maior poder de emocionar, por outro, administrar todos os seus componentes e tocar o público é algo bastante complicado. Em Bad Taste, Peter Jackson, mestre das emoções, conseguiu me fazer rir toda vez em que se propôs a isso, e, da mesma forma, me deixar com nojo praticamente durante toda a duração da obra (que efeitos sonoros, diga-se, de passagem!!!).
Mesmo com um orçamento reduzidíssimo, Jackson conseguiu invejosas quantidade e qualidade de efeitos especiais, trucagens, gruas… as interpretações, os efeitos e todas as outras escolhas artísticas são impecáveis, extremamente apropriadas a um filme cuja proposta não é mesmo se levar assim tão a sério (nenhum ator hollywoodiano caberia melhor em qualquer papel do filme).
Peter Jackson percebeu que, uma historia tão engraçada, mirabolante e ao mesmo tempo tão repugnante como essa só poderia ter força mesmo no cinema, seu meio próprio, primeiro e último. O espaço mais expressivo para os zumbis, monstros, super heróis e toda outra forma de ser extraterrestre é, definitivamente, a tela grande. Seres assim só existem mesmo na nossa imaginação e, sendo o cinema uma realidade artificialmente construída por natureza, fazer um filme fantástico é, de certa forma, falar sobre o próprio processo criativo audiovisual.
Quem já participou de uma filmagem sabe o quão pesada e cansativa é essa jornada. Posso dizer que a força que me faz filmar é querer ansiosamente ver aquilo que se desenrolará na minha frente a partir do momento que o diretor grita “ação”. Fazer drama é muito chato, falo por experiência própria. Mas fazer um filme em que você possa viajar, construir um mundo imaginário que nada tenha a ver com a realidade, cheio de explosões, tiros, sangue e todos os tipos de efeitos especiais, deve ser muito, mas muito empolgante !!!!
Com certeza a obra representa um tipo de filme feito para os apaixonados por cinema, inegavelmente divertido de se fazer e de se ver. Seu nicho consumidor (se é que havia essa preocupação) se constitui do mesmo tipo de pessoas que o produziram: nerds, leitores de gibis, estudantes de engenharia, rockeiros malditos e, é claro, pessoas com graves dificuldades de interação com o sexo oposto (nota-se a grave deficiência de mulheres no filme!). São pessoas que, assim como Peter Jackson, querem assistir algo que, acima de tudo, divirta.
Mas uma leitura política também não pode ser de todo descartada: zumbis são seres normalmente associados, de forma metafórica, aos alienados da nossa sociedade. Romero, por exemplo, é um cara que realmente faz filmes políticos nesse sentido, usando os zumbis para debochar dos costumes sociais, criticando-nos de forma irreverente e diferente do modo habitual.
Entretanto, na minha opinião, isso pouco importa em Bad Taste e mesmo em filmes parecidos.A grandeza da obra está, assim como em todo grande filme, na maestria de sua linguagem. A exemplo dos cineastas franceses da Nouvelle Vague, (que também admiravam Hollywood e o cinema de gênero) Jackson conseguiu no filme fazer algo extremamente novo, com outra cara, a sua cara. Bad Taste é um filme debochado, politicamente incorreto, assim como o jovem Peter Jackson.
Não é à toa que anos mais tarde o diretor conseguiria filmar O senhor dos Anéis, pois, assim como Sam Raimi e seu “Evil Dead”, com Bad Taste, Peter Jackson mais do que teve comprovado o seu talento em dirigir filmes fantásticos, repletos de efeitos especiais. É uma pena que, em Hollywood, os dois ainda não tenham tido, exceto em raras seqüências, a oportunidade de realizar algo que tenha mais a sua cara, demonstrando seu verdadeiro talento.
Carmen Sandiego
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