O Lado Bom do Guerrilheiro

5 de Abril de 2009 @ 12:42 - Geral
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Numa caravana revolucionária em direção a Havana, um carro de luxo passa, mais rápido, com quatro soldados dentro, buzinando e gritando para comemorar a recente vitória da revolução. Che observa, manda seu jipe seguir o carro e faze-lo parar. O comandante diz ao motorista - que pegara o conversível nas ruas de Santa Clara, última cidade tomada – para ele voltar, devolver o carro e depois ir a Havana, a pé se fosse necessário, mas com a consciência limpa; sem ter roubado nada de ninguém. A revolução que acabara de se fazer vitoriosa era do povo e não apenas uma troca de poder. Sendo assim, não haveria negociação e nenhum revolucionário deveria ter benefícios, como o de dirigir conversíveis importados que pertenciam à elite antes da vitória.

É esse o lado do revolucionário argentino Ernesto Che Guevara - que lutou em quase toda a América Latina - que o filme desta semana retrata em seus 126 minutos de duração. A transformação prática de um médico argentino em um revolucionário latino americano; o nascimento de um líder. Carismático, fisicamente frágil, com constantes crises de asma, mas com um discurso coerente e empolgante: o Che retratado no filme está longe de ser um tirano, como costumam definir os seus críticos. Respondendo a esse tipo de comentário, Steven Soderbergh, diretor da película, afirma: “Conheço bem a argumentação dos que são anti-Che e sei que qualquer quantidade de barbaridades que incluíssemos nesse filme não seria suficiente para satisfazê-los”.

E assim é respondida a única crítica possível a esta obra. A primeira parte de “Che” mostra um lado positivo do revolucionário e traz o espectador para junto dele. Aliás, no cinema, com o fim do filme, além de surpresa (“já acabou!?”), me veio a pergunta: porque afinal esse filme é tão polêmico? (- Porque seu protagonista é polêmico!) Tentei procurar defeitos que justificassem tanta discussão em cima da obra. Desde o início, me prendi à história e me tornei um dos soldados que acompanhavam a frente revolucionária comandada pelo argentino. Em nenhum momento saí daquele mundo. Logo, o filme cumpre o seu papel; quase não tem defeitos.

E se digo “quase” é porque existe um pequeno detalhe, que, apesar de não comprometer, pode ser apontado por críticos como falha da obra. A atuação do brasileiro Rodrigo Santoro destoa de todas as outras do filme. As cenas do talentoso ator são as únicas em que é possível constatar que houve ensaio. Santoro passa longe da profundidade necessária para a construção de um personagem tão importante na história de Che, e da revolução, quanto Raul Castro. Como eu disse, sua atuação, apesar de rasa, não compromete; as cenas das quais o ator participa se desenrolam normalmente. Mas Rodrigo, talvez pela dificuldade de atuar em espanhol, não trabalha com tanta naturalidade quanto o resto do elenco, ficando aquém do esperado.

Benicio Del Toro, por outro lado, conseguiu fazer o trabalho de sua vida. O ator se transforma em Che e, nem por um minuto, se despe de sua personagem. Não há uma cena em que se identifica Del Toro na tela. O tempo inteiro, o espectador acredita que quem está ali é Guevara. Seu carisma, sua asma, seus discursos, seus silêncios; tudo faz parte de um profundo trabalho de construção de personagem, que lhe rendeu o prêmio de Melhor Ator em Cannes. Injustamente, Del Toro não foi indicado ao Oscar; teria sido sério candidato a desbancar os gigantes que concorreram esse ano.

Roteiro, montagem e direção também merecem elogios. O roteiro, de Peter Buchman - baseado na memória escrita de Guevara “Reminiscências da guerra revolucionária cubana” - monta duas histórias paralelamente. A primeira, se inicia com a chegada de “Che” na sede da ONU, em 64 e vai até o seu discurso anti imperialismo para líderes mundiais. A segunda é a história da participação do guerrilheiro na revolução cubana, em 59, que começa com uma reunião do médico argentino com Fidel Castro, ambos sem barba, antes de se tornarem ativistas.

A velocidade com que essa montagem paralela é feita transforma um filme que poderia ser uma biografia cronológica, em uma obra bastante dinâmica. O diretor não se satisfaz em fazer um filme sobre a guerrilha. Soderbergh mergulha na personalidade de Che e, com uma compreensão muito peculiar da linguagem cinematográfica, transforma isso em filme. Sua direção é impecável e sua obra é prima.

Não acreditei quando o filme acabou. Pra mim o tempo passou rápido demais. Fiquei com vontade de assistir a segunda parte sem intervalo. Pensei em fazer o download, mas desisti: “Che” é o tipo do filme que merece o ritual do espectador de ir a uma sala de cinema. Mais uma vez a academia mostra suas fraquezas. “Che”, sem nenhuma indicação este ano, supera de longe algumas das obras desse último Oscar.

O filme mostra a força que um pequeno grupo pode ter na mudança de paradigmas. A revolução que parecia impossível, ali diante do gigante imperialista, aconteceu. Fidel chegou ao poder através da inteligência na formação de uma estratégia para a luta armada. O carisma de sua proposta e de seu grupo agregou intelectuais, camponeses, adolescentes, homens e mulheres. Che queria expandir essa revolução por toda a América Latina. Estou ansioso para assistir a segunda parte!

Jake Blues

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