O Doce Revolucionário

5 de Abril de 2009 @ 23:08 - Geral
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Avaliação: quatro estrelas 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 - quatro estrelas 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12

Che é uma revelação. Acima de tudo, traz uma atuação inesquecível, tão cuidadosa e plena de detalhes que quase não pode ser considerada uma atuação. Não há distanciamento entre Benicio Del Toro e sua personagem, Ernesto Che Guevara. O ator não parece medir seus gestos, pensar entre uma fala e outra, ponderar suas pausas e intonações. Ele simplesmente é. O fato de ele ter sido produtor do longa leva a crer que o filme foi a concretização de um sonho antigo, tão esperado que o ator teve tempo de pesquisar e se deixar absorver completamente pela personagem, coisa que dificilmente observamos no cinema atual. A espera compensou. Foi a consagração de Del Toro que, a partir daqui, está no patamar dos gigantes do cinema.

Honestamente, eu não sabia o que esperar de Che. Nunca idolatrei o revolucionário latino-americano e sempre tive dois pés atrás com relação ao passado sangrento de nosso continente, de ditadores burros e impulsivos que invariavelmente se deixam corromper pelo poder, por melhores que tenham sido suas intenções anteriores. Como interpretar Che Guevara? Como vestir aquele rosto, que já rodou o mundo todo em camisetas (já saídas de moda) e artigos de arte pop, sem ser um pouco ridículo, óbvio, grandiloqüente e irrelevante? O grande mérito de Del Toro e do sóbrio roteiro de Peter Buchman, baseado nas memórias de Che, é tornar o guerrilheiro humano, com todas as contradições e a doçura que isto implica. Che é doce. Sim, é preciso ser duro, é preciso ter coragem de matar em nome da revolução, mas, acima de tudo, é preciso amar o ideal de liberdade, o sonho da autonomia de um povo. A mensagem de Che é de amor e de coragem, não de guerra.

Neste sentido, creio que a parceria Del Toro/Sodherbergh foi, como já havia sido em Traffic, impecável. Havia uma sintonia perfeita, não só entre a dupla, mas entre todos os que estavam envolvidos na produção (inclusive nosso querido Santoro). Parecia que todos estavam embebidos dos ideais da época, todos os egos se curvaram à liderança de Del Toro e do diretor, assim como os guerrilheiros de outrora se deixaram guiar por Che. O filme é um daqueles exemplos raros de Deja Vu artístico, em que a obra revive na ficção o que já se passou na realidade, como se uma dimensão paralela fosse aberta para que o mundo vivenciasse novamente um fato essencial da história da humanidade.

O ponto fraco do filme foi a trilha sonora. As músicas pareciam entrar sempre no momento errado, no volume errado e com a intenção errada. Creio que foi um descuido imperdoável. Um filme passado em Cuba nos anos 50 merecia coisa melhor. Outra falha, que ainda não tenho certeza se foi proposital (e se foi não entendo o motivo), foi o papel de Fidel Castro no filme. Além do péssimo ator (com uma voz tão fina e uma presença tão insignificante que parecia uma formiga perto de Del Toro), a personagem só aparece duas ou três vezes no filme. Será que, para fazer Che sobressair foi necessário cortar Fidel? Será que se quer implicar que Fidel foi um mero coadjuvante da Revolução que ele mesmo idealizou? Bom, não sou nenhuma especialista em Revolução Cubana, mas fiquei bastante confusa com isso.

Defeitos à parte, foi uma grande injustiça Del Toro não ter sido indicado a melhor ator no último Oscar, principalmente quando o tosco e irrelevante Brad Pitt foi um dos concorrentes. É mais uma prova de que a academia se interessa menos por bons filmes e boas atuações que por boa política e popularidade. Para mim, ele barrou Sean Penn, Mickey Rourke, Brad Pitt e todos os outros, dando uma aula de atuação que, sem dúvida, fez tremer as beldades vazias de Hollywood.

Wall-E

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