Consciência Revolucionária
5 de Abril de 2009 @ 23:56 - GeralArquivado sob Filme da semana, Nossos Críticos, Fábio Escovedo | Link desta publicação | Enviar por e-mail
Concebido como um épico de 4 horas de duração, a primeira metade de “Che”, dirigido pelo norte-americano Steven Soderbergh e protagonizado pelo porto-riquenho Benicio Del Toro, impressiona pela maneira em que enaltece a revolução cubana e seu herói protagonista. Está certo que se passaram cinquenta anos desde os acontecimentos históricos retratados e que o impacto polêmico que esta obra poderia ter causado décadas atrás não é mais provocado nos dias de hoje. Mesmo assim, o longa gera reflexão e questionamento sobre o devido valor das ações tomadas pelos líderes da revolução e sobre a conscientização da população de uma nação.
Nesta primeira metade, vemos o início da transformação de Che, um médico introspectivo e fragilizado pela asma, em um líder justo, carismático e cativante. Vemos, também, em sua relação com os soldados e com a própria revolução, que a postura de liderança de Che é algo a ser admirado. Ele exige que seus soldados saibam ler e escrever. Também exige justiça e o estabelecimento de uma relação pacífica entre seu exército e a população dos vilarejos e cidades por onde passam. Che está consciente de que a revolução não depende somente da força das armas e que uma população educada e conscientizada é essencial para a unificação de uma nação em relação ao ideal revolucionário.
Benicio Del Toro, no papel título, apresenta uma caracterização tão naturalista, que é inadequado chamá-la de interpretação. A postura de Del Toro e sua semelhança física com Che nos faz esquecer, durante todo o filme, que estamos assistindo a uma obra de ficção. Creio que este tenha sido o objetivo principal de Sorderbergh. Sua aproximação documental da narrativa é evidenciada pela quebra da linha temporal dos fatos históricos e, principalmente, pela estética utilizada nas sequências da visita de Che a Nova York. E, contrariando a ridícula tendência do cinema norte-americano em colocar personagens de outros países falando inglês com sotaque, a decisão de manter sempre o espanhol como a língua falada pelos cubanos é mais do que acertada.
Dentro deste universo naturalista criado, um elemento se destaca de forma negativa: a trilha sonora de Alberto Iglesias. O compositor, que acompanha Almodóvar desde “A Flor do Meu Segredo” é um artista excepcional, mas a utilização de sua trilha sonora no longa é totalmente inadequada. O objetivo da música em um filme é envolver o espectador no universo emotivo da história. Mas em “Che” o caso se inverte, pois na maioria das vezes em que se apresenta, a trilha caracteristicamente melodramática de Iglesias nos afasta do universo naturalista apresentado até então. Mesmo assim, por se apresentar de forma quase pontual, ela não compromete o filme como um todo.
Por fim, mais do que suas qualidades estéticas e narrativas, é o lado ideológico de “Che” que causa maior impacto. Em uma das cenas mais reveladoras, já quase no final da projeção, Che é convocado por Fidel para participar da revolução cubana. Ele responde que aceitará com a condição de que levarão a revolução para toda a América Latina, caso obtenham êxito em Cuba. E esta possibilidade, agora extinta, fica martelando na cabeça do espectadore após sair da sala de cinema. Como seria o mundo de hoje se Che e sua trupe tivessem conseguido alcançar todos os seus objetivos?
Bob Harris
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