Figura Rara
30 de Março de 2009 @ 02:13 - GeralArquivado sob Principal, Filme da semana, Nossos Críticos, Rodrigo Frota | Link desta publicação | Enviar por e-mail
Como tem ocorrido com a maioria das escolhas de filmes da semana, “Do mundo nada se leva”, além de entreter, faz pensar nas escolhas que fazemos. O filme é leve e comovente, mas consegue passar uma mensagem. E essa mensagem caminha na mesma direção daquela do filme da semana passada, “Zeitgeist”. Ambas jogam uma pulga atrás da orelha do espectador, propondo uma reflexão sobre o modo como levamos a vida.
O filme desta semana é de 1938 e trata, basicamente, da história de dois jovens que pretendem se casar, mas precisam da concessão de ambas as suas famílias. Ela, Alice Sycamore (Jean Arthur) vem de uma família de classe média excêntrica, que vive um estilo nada convencional de vida. Já a família de Tony Kirby (James Stewart) é extremamente tradicional e tem um futuro brilhante planejado para o seu herdeiro. Obviamente, a família Kirby não vê com bons olhos a união entre seu primogênito e a secretária dele, mas Tony tem certeza do que quer e se encanta com a leveza com que leva a vida a família de Alice, liderada pelo seu patriarca “Grandpa” Vanderhof (Lionel Barrymore).
O roteiro caminha lentamente, apresentando as personagens e retardando ao máximo o encontro entre as famílias. Assim, somos levados a conhecer de um lado a maneira com que o banqueiro Sr. Kirby (Edward Arnold), pai de Tony, trata seus funcionários, sua mulher e seu filho, dando sempre prioridade para os negócios. E, do outro, Grandpa Vanderhof, simpático senhor que decidiu, ainda jovem, que faria na vida apenas o que tivesse vontade.
Alguns destaques valem ser feitos para construção de personagens e atuações. É o caso, por exemplo, do professor de ballet da irmã de Alice, o Sr. Kolenkhov (Mischa Auer). O modo como a personagem é usada para criticar de forma escrachada o sistema e seus componentes é sarcástico e inteligente, rendendo ótimas cenas. Outra grande personagem é a do “vovô” Vanderhof. O seu carisma é usado de forma brilhante para falar em sermões direcionados ao Sr. Kirby a mensagem que George S. Kaufman, Moss Hart (roteiristas) e Frank Capra (diretor) querem passar para o público. Grandpa Vanderhof é exatamente o oposto daquilo que se chama de homem “bem sucedido”, e por isso representa uma alternativa crítica ao sistema. Lionel Barrymore cativa o espectador na transmissão dessa mensagem de modo emocionante.
É contrapondo os estilos de vida das duas famílias que o filme propõe uma reflexão. O banqueiro Kirby fez de sua vida o que se espera de um homem inteligente: fortuna, reputação e poder. Contudo, não tem tempo para nada daquilo que um dia lhe dava prazer. A família de Alice, por outro lado, acompanha o raciocínio de seu patriarca e faz apenas aquilo que lhe é prazeroso. A ganância de um se contrapõe à inocência de outro; o materialismo de um vai de encontro ao humanismo de outro; a vida pragmática de um se opõe à sonhadora do outro.
O encontro entre os dois estilos – ponto alto do filme – é hilário e desastroso: acaba com todos presos, por fabricação de fogos de artifício sem permissão. Mas a situação, encarada de maneiras opostas novamente pelos dois grupos (uns se divertindo, outros enraivecidos), abala as convicções do Sr. Kirby. Quando o banqueiro constata que, apesar de não ter advogados, a família de Alice tem amigos para salva-los, percebemos um questionamento (que é direcionado ao público) em sua expressão. Onde estavam os seus amigos? Qual o lugar do dinheiro em sua vida? Será que estava certo ao correr incansavelmente atrás de fortuna?
No fim, a sabedoria contida na simplicidade poética da música desata o nó das diferenças de estilo de vida e a sensação que temos é a de “felizes para sempre”. Que bom se a vida fosse assim ingênua e singela. Que bom se GrandpaVanderhof fosse figura comum no mundo.
Jake Blues
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