Simples e Comovente
29 de Março de 2009 @ 23:40 - GeralArquivado sob Principal, Filme da semana, Nossos Críticos, Apoena Frota | Link desta publicação | Enviar por e-mail
Frank Capra é um artista brilhante. Seus filmes, talvez por tratarem de valores morais que dizem respeito ao ser humano e seus princípios, são mágicos e atemporais. Seus “heróis” não são exatamente modelos que sabem se portar em cada situação; são pessoas que erram, como qualquer um, por conta de sua fragilidade diante de questões comuns a todos; como o amor, os relacionamentos familiares, a situação financeira, etc… mas que se revelam especialmente únicos quando menos esperamos.
Como diretor, Frank Capra é muito mais do que um pioneiro: é um exímio contador de histórias. Antes de tranformar seus longas em projetos revolucionários, ele se preocupa em deixar a história se desenvolver em primeiríssimo plano. Seu movimento de câmera é simples mas tem classe e se harmoniza perfeitamente com a natureza do roteiro, o que já bastaria para definir seu estilo. Todavia, em Do Mundo Nada Se Leva (You Can’t Take It with You) Capra demonstra mais uma vez, através de sua sutil edição, uma naturalidade ímpar que garante, espontaneamente, uma empatia direta com o público, o tornando um dos principais diretores de uma Hollywood em definição como maior produtora de cinema do mundo.
No longa, que rendeu a Capra o terceiro Oscar de melhor direção, James Stewart vive Tony Kirby, filho do influente e ganancioso empresário Anthony P. Kirby, que se prepara para o maior negócio de sua vida: ele está prestes a monopolizar o mercado de armas em um mundo em vias de uma grande guerra.
Anthony só não esperava que seu filho, recém nomeado vice-presidente da empresa, fosse se apaixonar por Alice Sycamore, uma simples estenógrafa cuja família era, justamente, a proprietária da única residência de uma área de 12 quadras que ainda não pertencia à sua empresa.
Sem apelar para mistérios baratos (recurso ultilizado por diretores das quase sempre previsíveis comédias românticas contemporâneas para “confundir” o espectador) Frank Capra investe em suas personagens para construir a história. Isso transfere uma confiança visível aos atores que, somando seus talentos, compõem, sem excessão, um elenco perfeito.
James Stewart, ainda um novato nessa produção, dá vida a uma personagem intrigante. Sem exagerar, o Tony de Stewart é, ao mesmo tempo, mimado, infantil, carismático e sonhador. O talento do ator é indiscutível e era de se esperar seu enorme sucesso nos anos que viriam. O experiente Edward Arnold, parceiro de Capra em tantos outros filmes, encarna um empresário frio e sem escrúpulos de forma notável. A cena em que ele está sozinho na sala de reuniões da empresa, quando, pela primeira vez, sua consciência pesa é o exemplo de um trabalho grandioso. Jean Arthur está radiante como Alice, sua presença na tela é bela e vigorosa. Contudo, o carisma do roteiro de Do Mundo Nada…, que foi encenado orginalmente no teatro, brota do espirituoso Martin Vanderhof, vivido aqui pelo grande Lionel Barrymore. Sua liberdade é contagiante. Suas frases são antológicas. Ele é o avô que todos queríamos ter. É inesquecível o momento em que ele dá uma lição a Anthony quando os dois, e o resto de suas famílias, se encontram na prisão.
Não podemos esquecer que, apesar de sua atmosfera positiva e sua mensagem de esperança, Frank Capra não deixa de fazer uma forte crítica ao sistema financeiro americano e ao capitalismo. Utilizando-se de argumentos lógicos, o filme chega a questionar, inclusive, o pagamento obrigatório do imposto de renda. Há de se dar crédito à coragem do diretor ao retratar de forma sutil e inteligente um país que se recuperava de uma crise e a maneira inconsequente que pensavam (pensam até hoje) e agiam seus poderosos empresários. Basta lembrar que na primeira cena Kirby e seus sócios comemoram a definição de um evento que viria a ser chamado de 2ª Guerra Mundial.
Melhor filme de 1938, segundo a Academia, Do Mundo Nada Se Leva é leve e intenso. Uma verdadeira aula de cinema e de liberdade.
Tony Montana
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