Finais Felizes - “Do Mundo Nada Se Leva”

29 de Março de 2009 @ 21:25 - Geral
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Não se preocupem, não revelarei o final do filme. Quero apenas registrar aqui um pouco da alegria que senti terminado o filme da semana, que me fez lembrar o poder de um final verdadeiramente feliz. Finais felizes são frequentemente banalizados pela cultura contemporânea, que está sempre em busca de soluções originais e surpreendentes para os velhos temas humanos. Eles parecem o desfecho mais simples, mais conveniente e mais popular e, na maioria das vezes, é assim, de fato. Porém, parte da graça do cinema, e isto nem o crítico mais especializado pode negar, é seu fantástico poder de nos transportar para uma realidade completamente diferente, um pequeno mundo fechado em si mesmo que nos dá, ao longo dos breves minutos em que estamos vidrados diante da tela, a sensação de que a vida é perfeita e completa.

E foi isso o que senti durante todo o tempo de “Do Mundo Nada Se Leva”, a peculiar comédia de Frank Capra, lançada em 1938. Completando já seus 61 anos de idade, o filme, mesmo com suas marcas temporais de atuação, roteiro e direção, permanece surpreendentemente atual em sua temática, abordando uma pequena família americana que, simplesmente, faz o que quer, tendo por prioridade, não o dinheiro ou o status social, mas a diversão e a capacidade de fazer e manter amigos. Assim são os Sycamore: Alice é estenógrafa, Penny escreve peças de teatro em uma máquina de escrever que foi entregue em sua casa por acaso, Essie dança em sua própria sala de estar, Paul e Depinna passam seus dias no porão fabricando explosivos e o vovô Vanderhof – que abandonou um emprego promissor em sua juventude simplesmente porque não estava se divertindo – não paga impostos porque não acredita neles.

Primeiramente, temos a impressão de que trata-se de uma família de loucos, completamente irresponsável para com seus deveres sociais e alienada do mundo real. Mas o conflito que deriva do envolvimento de Alice com seu chefe, Tony, herdeiro da rica família de banqueiros chefiada por seu pai, Anthony P. Kirby, logo nos faz questionar se são eles mesmos os loucos ou se é o resto do mundo, todos escravizados por um sistema financeiro competitivo que os prende a um ciclo de ambição e ganância que vai, pouco a pouco, privando-os dos verdadeiros prazeres da vida e de seus verdadeiros sonhos. Louco é quem se enquadra ao sistema, respeitando mecanicamente todas as suas regras e pagando com a própria vida para manter-se inserido nele? Ou quem, percebendo a falta de sentido da máquina burocrática que mantém seres humanos (cada um com seus ideais e peculiaridades) trabalhando como robôs para garantir que a roda da fortuna continue girando, decide dar um passo para trás e fazer as coisas do seu jeito?

Essa questão em si, é, e creio que por muito tempo continuará sendo, atual. Mas o que mais me surpreendeu nesse filme, no quesito contemporaneidade, foi a sugestão de que os grandes culpados pelo sistema doentio no qual somos praticamente forçados a nos inserir, são os banqueiros. Somente agora, com a Internet e o aparecimento da mídia independente, estamos tendo pleno acesso à dolorosa verdade de que os verdadeiros donos do mundo são os banqueiros e que toda a crise econômica mundial, que afeta inclusive a produção cinematográfica brasileira – já que estamos falando de cinema – é conseqüência do terrível regime de juros e impostos implantado pelos bancos privados, ao qual o Estado se submete e do qual se tornou cúmplice. Uma das melhores cenas do filme é a da conversa entre Tony e Alice em que o primeiro revela seu antigo sonho de descobrir de que maneira a energia solar pode ser reaproveitada pelos humanos e de como se viu obrigado a abandoná-lo para juntar-se à tradição de sua família.

Bem… Teorias da conspiração à parte, o sucesso do filme deve muito às excelentes atuações. A dupla protagonizada por James Stuart e Jean Arthur possui uma química extraordinária e nos mantém, o tempo todo, torcendo pela felicidade do casal. Edward Arnold e Mary Forbes interpretam brilhantemente o conservadorismo dos membros da elite de banqueiros americana. Lionel Barrymore cria uma das personagens mais interessantes de seu gênero, sabendo ser profundo e cômico, ao mesmo tempo, equilibrando peso e leveza com inteligência.

Wall-E

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