Tempo de Mudança
22 de Março de 2009 @ 17:12 - GeralArquivado sob Principal, Filme da semana, Nossos Críticos, Paula Marchesini | Link desta publicação | Enviar por e-mail
Quando se trata de mudar o mundo, temos de ter a consciência de perdoar pequenas faltas artísticas, uma trilha sonora um tanto amadora e animações feitas em casa. E creio que este foi o corajoso objetivo de Peter Joseph, produtor, diretor, editor, roteirista e compositor de Zeitgeist. Não é à toa que o filme, proibido em diversos países (inclusive no Brasil), recebeu a generosa avaliação de 8.7 no IMDB, com mais de 11 mil votos.
Dividido em três seções – a primeira sobre religião, a segunda sobre o 11 de setembro e a terceira sobre o sistema financeiro norte-americano – o filme desenvolve uma série de teorias da conspiração que, no mínimo, colocam nossa cabeça para funcionar. Ainda que se queira defender que muitos dos argumentos de Joseph não têm base, há outros que são inquestionáveis e, estes sozinhos bastam para garantir a relevância do documentário.
A primeira parte do filme, que simplesmente prova que tudo o que nos foi ensinado sobre as religiões cristãs, até hoje, foi uma mentira deslavada para controlar nossas mentes e garantir que não saíssemos da jaula ideológica que nos impuseram desde o nascimento, é brilhantemente exposta, com argumentos irrefutáveis concernindo as inegáveis semelhanças entre Jesus e diversas entidades religiosas que o precederam, todas elas baseadas em conhecimentos astrológicos derivados da cultura egípcia que, ao longo do tempo, foram oportunamente mesclados a fragmentos de história e literatura.
O que realmente me comoveu nesta primeira parte, o que me enfureceu, de fato, foi que eu, que me considero uma pessoa de formação privilegiada, com acesso amplo ao conhecimento, de família agnóstica, que sempre valorizou a ciência e o pensamento racional, jamais tenha tido acesso a informações tão simples e transparentes. Como pude não saber disso tudo antes? Finalmente me senti respeitada, senti que minha inteligência, insultada ao longo de toda a minha vida, foi levada em consideração. Que tipo de sociedade é tão ditatorial, tão medrosa, tão controladora, a ponto de não passar estas informações para seus filhos, nas escolas, nas faculdades, nas ruas, onde quer que seja? Não sou contra o ensino religioso, ou a crença religiosa, mas sou contra, sim, a ditadura ideológica. Se a população religiosa tivesse tanta certeza do poder de sua ideologia e de seu bem intrínseco, não haveria por que não ensinar seus discípulos a QUESTIONAR. O problema é que o questionamento bate de frente, não só com os dogmas religiosos e com a fé, mas, principalmente, com a lavagem cerebral e os instrumentos de controle social, estes sim, os verdadeiros pilares da cultura religiosa.
Passado o terror inicial de saber que, eu também, por menos que eu quisesse ou pensasse que fosse possível, faço parte da manada estúpida que vaga pelo mundo sem conhecimento de causa, um terror ainda mais profundo sobreveio na segunda parte do filme: o de entender que minha vida, juntamente como as das pessoas que amo, está em risco por causa dessa ignorância. Se eu fizesse parte da família de uma das vítimas do 11 de setembro, eu me dedicaria, em tempo integral, a colocar George W. Bush atrás das grades ou, preferivelmente, embaixo do capacete de uma cadeira elétrica. O homem que assumiu a presidência da maior potência do mundo nos últimos oito anos, é um dos maiores assassinos de todos os tempos, talvez mais cruel e frio – e certamente mais burro – que Adolph Hitler.
Mas não para por aí: George W. Bush não passa de um fantoche. É o que percebemos ao longo da argumentação da terceira parte do filme. Ele é apenas mais um acorde na macabra trilha sonora composta pelos verdadeiros chefes-de-estado norte-americanos: os banqueiros. Ao longo desta perigosa sinfonia, um presidente vai substituindo o outro e assumindo qualidades e defeitos que causam um falso alívio com relação à, sempre incompetente, administração anterior, mantendo viva a dança das cadeiras que vai usurpando a população mundial do mundo que poderia habitar e eliminando todas as possibilidades de felicidade, sem matar a esperança e a força de trabalho.
Como nos é dito no início de Zeitgeist Addendum (sim, imediatamente após o primeiro, fui compelida a assistir ao segundo), adaptar-se a uma sociedade doente não é sinal de saúde, o que faz com que, mesmo os indivíduos bem-sucedidos sejam infelizes e sintam-se tolhidos da verdadeira vida. Este argumento, complementa, na minha opinião, a primeira parte de Zeitgeist, expondo mais um dos papéis da religião neste cenário: engendrar o conformismo. Não somos felizes em vida porque só o paraíso proporciona a verdadeira felicidade; então, para que tentar mudar alguma coisa? Bullshit.
Bem, se o mundo é um teatro e se somos indivíduos patéticos desprovidos de poder ou de meios para promover a mudança, o que nos resta? Se todos vissem Zeitgeist, creio que seria um excelente começo.
Wall-E
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