O Mundo de Kaufman
15 de Março de 2009 @ 22:51 - GeralArquivado sob Principal, Filme da semana, Nossos Críticos, Paula Marchesini | Link desta publicação | Enviar por e-mail
Não foi sem muita dificuldade e angústia que atravessei as duas horas de Synedoche New York, o mais recente filme de Charlie Kaufman e sua estréia como diretor. É um filme difícil: estrutura não-linear, personagens inventivos, trama complicada e pitadas de surrealismo, exigindo, sem dúvida, a atenção total (e uma dose extra de paciência) do espectador. Mas é inegável: trata-se de uma obra-prima, comparável a “Doce Vida”, de Fellini, que insere Kaufman, inesperadamente, no hall dos grandes roteiristas-diretores.
O enredo gira em torno dos bloqueios criativos, da frustração profissional e consequente crise pessoal do diretor de teatro Caden Cotard, genialmente interpretado por Philip Seymour Hoffman. Logo no início do filme, a personagem é gravemente ferida na cabeça em um acidente doméstico e, a partir daí, não sabemos mais o que é sonho, o que é realidade e o que são representações criativas do diretor. Os três mundos se misturam de maneira natural e sutil. O surrealismo vai sendo inserido na trama com uma ausência de cerimônias tão impressionante que nos questionamos se a vida de Kaufman não é um pouco parecida com a de Cotard. O estranho não tem a intenção de ser estranho, de se destacar do comum: quer, ao contrário, evidenciar a realidade e a visão pessoal do protagonista.
Abandonado pela família, Cotard torna-se obcecado com o trabalho e com a necessidade de produzir uma peça que represente sua vida pessoal nos mínimos detalhes, como se, distanciando-se de suas tragédias e colocando-as no palco, pudesse compreender a si mesmo e ser compreendido. Então, cada detalhe, cada pensamento, cada pequeno segundo de sua vida, torna-se crucial e ganha espaço dentro do mundo paralelo em que vai se transformando a peça. Incapaz de se distanciar de sua escrita, Cotard mistura-se de tal forma às suas personagens que elas mesmas começam a fazer o caminho inverso e sair da peça para interferir na vida do autor.
Assim, o palco vai se ampliando até tomar conta de quase toda a cidade. Todas as pessoas passam a ser atores da peça de Cotard, projeções de sua consciência artística. Todos se tornam personagens criadas por ele, que necessitam de sua direção. Seus medos se concretizam conforme ele os vai criando (como, por exemplo, o medo de perder a influência sobre a filha e se distanciar dela a ponto de os dois não falarem mais a mesma língua), em um fluxo de consciência arrebatador. A realidade, para Cotard, não é real o suficiente enquanto não é representada no palco. Para tornar a vida real, é necessário, antes, torná-la irreal (ou surreal).
Em sua ambição artística, Cotard vai se sentindo cada vez mais incapaz. Sua solidão vai se agravando, conforme ele vai percebendo que seus esforços jamais são suficientes, e que, por mais que ele consiga representar a realidade em detalhes, é incapaz de fazer parte dela, de dirigi-la da maneira como gostaria. Seu isolamento se torna tão potente que há uma espécie de morte do ego, em que sua personalidade é substituída pela de uma de suas personagens, a faxineira de sua primeira esposa, como se tanto fizesse ser uma pessoa ou outra, já que “todos são todos”. E então essa plenitude impessoal, essa fusão total entre todas as personagens, transforma-se em idéia, começa a clamar seu lugar dentro da grande peça do diretor, mas, nesse momento, ele já está cansado demais para dirigir e seu relaxamento coincide com sua morte como criador: quem está dentro da realidade não precisa criar. Criar é, necessariamente, afastar-se do real, observá-lo de fora e transformá-lo em matéria-prima para uma representação que o universalize.
O filme é brilhantemente dirigido por Kaufman e seu ritmo é tão mais lento e singelo que o dos outros filmes baseados em seus roteiros, que me pergunto se sua decisão de dirigi-lo não foi uma espécie de vingança contra Hollywood, uma necessidade de mostrar o verdadeiro teor de seus roteiros e a doçura viva e melancólica de sua escrita. Não que os outros filmes tenham qualquer defeito (para mim são perfeitos), mas não atingem, enquanto experiência cinematográfica, o formato sublime de Synedoche, que valeu a comparação com “Doce Vida” proposta no início dessa crítica.
Falar sobre a vida é tão difícil, as ferramentas que temos para transformá-la em arte são tão indiscutivelmente precárias perante sua infinita complexidade, que, muitas vezes, o mais honesto, nesta tentativa, é falar sobre nossa incapacidade de representá-la. Não poucos cineastas fizeram isso de maneira brilhante, e agora a figura de Kaufman clama seu lugar entre eles.
Wall-E
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