Baseado em fatos ficcionais
9 de Março de 2009 @ 02:00 - GeralArquivado sob Principal, Filme da semana, Nossos Críticos, Rodrigo Frota | Link desta publicação | Enviar por e-mail
Certa vez, assistindo a uma palestra do João Moreira Salles, ouvi do palestrante que um bom documentário deveria se basear em uma ótima ideia ou em uma forma brilhante de contar uma história.
Depois de viver emoções variadas assistindo a “Dear Zachary” posso garantir que a obra de Kurt Kuenne conseguiu atingir ambos os objetivos com maestria. O documentário tem como objeto o amigo de infância de Kurt, Andrew Bagby, médico americano assassinado por sua ex namorada canadense, Shirley Jones. Kuenne decide fazer um filme – inicialmente para os seus amigos e familiares – sobre a história de seu companheiro, seus hábitos e sua personalidade.
Para isso, o diretor e produtor do documentário viaja a diversos lugares com o intuito de gravar entrevistas, que mistura com imagens de arquivo para apresentar o protagonista. E é através dos depoimentos de seus amigos mais próximos, de sua família e, especialmente, de seus pais - todos marcados pelo cruel destino da vítima - que ele apresenta o Dr. Andrew Bagby, um carismático médico americano.
Durante as filmagens, Kurt descobre que Shirley estava grávida de Andrew quando o matou com cinco tiros e o objetivo do filme passa a ser outro: contar os detalhes da vida e morte do amigo para o seu filho, Zachary. O diretor, então, passa a acompanhar a briga judicial entre Shirley (ainda solta no Canadá) e os avós do garoto.
A mãe de Zachary aparece no filme como o lado negro da história de Andrew; como a assassina fria que matou o pai de seu filho premeditadamente, como a psicopata que fala com a polícia após matar o ex namorado como se nada tivesse acontecido.
Em nenhum momento o documentário clama imparcialidade. Pelo contrário, desde o início mostra de que lado está e traz o espectador junto consigo. Kuenne emocionalmente envolvido na história – o que ele deixa claro através de uma narração em off que é mantida a despeito de soluços, risadas e choros – faz uma argumentação muito bem feita, do início ao fim de sua obra: “existe o lado certo e o lado errado da história, e nós estamos do lado certo”.
A edição e o roteiro, que ao mesmo tempo trazem os fatos em ordem cronológica e hierarquizam muito bem as informações, são pontos altos da obra de Kurt. Há um dinamismo que costura todo o roteiro, que parece acontecer em tempo real e dá a impressão de que o diretor é nosso conhecido, está na nossa frente contando a história de um amigo seu. Kuenne cria uma linguagem que transforma o espectador em membro da família e o mantém preso no desenrolar dos fatos. É muito interessante a forma como ele usa imagens de seus filmes da infância e adolescência, nos quais Andrew era o protagonista, para trazer sentido a depoimentos e desse modo fortalecer sua argumentação.
Fica difícil não se envolver. O espectador realmente acompanha o sofrimento do casal boa gente (good people) Kate e David, e vive junto com ele a inconformidade de sentir-se impotente diante do sistema. Revolta acompanhar o lento processo jurídico canadense que não logra diagnosticar um fato óbvio: Shirley é uma psicótica perigosa e deve ser presa. É aterrorizante ouvir as conversas por telefone entre David e a assassina de seu filho, sobre Zachary, nas quais o pai da vítima se força a tomar uma postura racional, implorando por menos contato com a assassina, e Shirley se mostra dissimuladamente “preocupada” com o filho.
“Dear Zachary” emociona de diversas maneiras. O documentário mostra um lado do ser humano que perturba; em certo momento, comecei a me perguntar se, no lugar de David, não mataria Shirley e roubaria meu neto. Não cheguei a nenhuma resposta, mas chorei quando vi o pai da vítima declarando que se fazia a mesma pergunta antes de dormir.
Sem me atrever a contar o que se passa no final, arrisco dizer que a mensagem do filme é, no fim das contas, de esperança. No entanto, é com muita melancolia que o espectador lê essas entrelinhas e constata que tudo que acabou de assistir realmente aconteceu; nada é ficção.
Jake Blues
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