Terror Absoluto

8 de Março de 2009 @ 18:10 - Geral
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Não é novidade: existem pessoas desequilibradas no mundo. Mas, conforme “Dear Zachary” vai se desenrolando, sentimos, com nitidez, a absoluta certeza de que jamais existiu uma criminosa tão sem coração quanto Shirley Turner. Desde o início do filme, somos jogados no chão, sem piedade, atropelados por um turbilhão de fatos que vão se apresentando em um ritmo avassalador, nos mantendo em pânico, sem trégua, ao longo dos 90 minutos do documentário.

A sensação é tão pesada e angustiante que não é exagero afirmar que Kurt Kuenne criou um novo gênero de filme: o documentário de terror. Acho que, desde a primeira vez que vi Branca de Neve, lá pelos meus seis anos, quando a bruxa malvada me deixou sem ar e traumatizada por boa parte da minha infância, eu não experimentava uma sensação tão genuína de medo.

“Dear Zachary” gira em torno da morte de Andrew Bagby, médico respeitável e carismático, dono de amizades excepcionais (incluindo a de Kuenne) e de uma inteligência cativante que herdou dos pais, Kate e David Bagby. Já de início, a maneira como Kurt Kuenne apresenta sua proposta como diretor do filme é irresistível: ele quer fazer um filme sobre seu melhor amigo, morto tão precocemente, não para desvendar mistérios em torno de sua morte, mas para conhecer aspectos de sua personalidade que não teve tempo de conhecer (como, por exemplo, seu hábito de fotografar). Ele quer se aproximar do amigo para, de alguma maneira, se distanciar da realidade de sua perda.

Pouco depois, Kuenne introduz um pressuposto ainda mais honesto: ele quer que o filme seja uma maneira de apresentar Andrew a seu filho, Zachary, que só veio ao mundo depois da morte do pai.

Enquanto Andrew vai sendo apresentado (de maneira tão natural que parece ser nosso amigo também), ao mesmo tempo em que nos vamos deixando envolver por sua singular personalidade, somos tomados por um medo paralisante (a ponto de eu simplesmente não conseguir sair da frente da televisão para ir ao banheiro) de que algo monstruoso se aproxima. Fazemos um verdadeiro exercício de imaginação para tentar conceber a pior morte possível e temos a certeza de que nosso agora amigo Andrew foi vítima do mais horrendo homicídio da história. E então o próprio diretor se interrompe e desabafa, dizendo que, antes de continuar falando sobre o amigo, precisa nos contar o que aconteceu. É aí que ela aparece.

Shirley Turner, se não fosse uma das mais cruéis assassinas já retratadas em um documentário, poderia ser atriz merecedora de Oscar em um filme de Hitchcock. Seu rosto, sua voz, sua maneira de falar, cada detalhe de sua personalidade é assustador. E aqui, mais uma vez, destaca-se o mérito de Kuenne, que encaixou de maneira brilhante as imagens, os vídeos e as gravações telefônicas de Shirley, de modo a transformar uma mulher que, em qualquer outro contexto seria uma frágil criatura não de todo desprovida de charme feminino, em um verdadeiro “freak”. O papel da excepcional trilha sonora, que , aliás, é de autoria do próprio Kuenne, é também fundamental para atingir esse efeito.

Depois do primeiro grande choque, quando os detalhes da morte de Andrew são esmiuçados e pensamos que, ao menos o pior já passou e podemos relaxar até o final do filme, somos assaltados pela segunda vez – e dessa vez não há recuperação possível – quando Kuenne revela a ilimitada maldade de Turner, uma mãe capaz de matar o próprio filho, Zachary, somente para impedir que ele tivesse uma relação mais amorosa com os avós, Kate e David, do que tinha com ela.

E então o filme adentra uma dimensão insuspeitada: deixa de ser um “documentário de terror” ou um registro genioso da vida do melhor amigo do diretor e passa a ser um documentário de importância social, que tem por objetivo criticar as frágeis políticas de fiança e de custódia infantil para os condenados a homicídio no Canadá. É comovente ver a maneira como os Bagby transformaram uma tragédia avassaladora em uma luta corajosa em prol de uma revisão do sistema judiciário canadense.

Em uma das últimas cenas do filme, uma entrevista concedida pelo casal Bagby, o diretor é eximido do único defeito possível do filme (um certo maniqueísmo tipicamente americano que apresenta os Bagby como sempre bons e Shirley como sempre má) quando David, gritando a plenos pulmões, refere-se a Shirley como uma “fucking bitch” e confessa o desejo que teve (e que por pouco não concretizou) de matá-la. Toda a humanidade do casal transparece aqui. É uma cena tocante, corajosamente incluída no filme por Kuenne.

Wall-E

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