Avassalador

8 de Março de 2009 @ 19:17 - Geral
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Avaliação: cinco estrelas 1 2 3 4 5 6 7 8 - cinco estrelas 1 2 3 4 5 6 7 8

O filme dessa semana tem todos os ingredientes de um filme de terror. Desde a trilha sonora, que salta do emocionante ao perverso em questão de segundos, passando pelo agonizante e abrupto desenho de som e pela montagem cheia de suspense, e finalmente, seu tema naturalmente pavoroso, que nos deixam desde a primeira cena, vidrados de medo. E é exatamente nesse gênero que se encaixaria Dear Zachary se não fosse por um detalhe perturbador: trata-se de um documentário, e, infelizmente, tudo aconteceu de verdade.

Com o intuito inicial de remontar o passado de seu amigo Andrew Bagby, assassinado pela canadense Shirley Jones, sua ex-namorada, o diretor Kurt Kuenne descobre que ela está grávida do filho de Andrew (Zachary), o que transforma seu primeiro objetivo em uma missão ainda mais nobre: apresentar a Zachary o pai que ele nunca conheceria.

Usando cenas de filmes que fazia na infância e na adolescência, os quais Andrew quase sempre protagonizava, além de imagens de arquivo, Kuenne nos oferece uma visão mais íntima de Andrew, e cria, de cara, uma empatia com aquela personagem cativante, que antes de tudo, era uma pessoa comum. Através de depoimentos emocionados de inúmeros amigos de infância, faculdade, e, é claro, familiares, viramos testemunhas de como uma só pessoa pode influenciar tanta gente, e de como essas pessoas ficaram marcadas depois do brutal acontecimento.

Shirley Jones é apresentada de forma oposta. Exatamente como se faz com vilões e montros em filmes ficcionais: ela aparece aos poucos. Primeiro, ouvimos falar sobre ela. Depois, através de uma gravação feita pela polícia quando ela ainda voltava para casa logo após assassinar Andrew friamente, somos surpreendidos por uma voz perturbadoramente controlada e simpática. Devidamente repugnados, ainda somos obrigados a conhecê-la mais a fundo, o que se torna quase insuportável.

Intolerável também, porém aqui emocionalmente, é acompanhar a história por meio da ótica de Kate e David, pais de Andrew. Seus depoimentos são cheios de detalhes desagradáveis. De cara ficamos chocados com a sinceridade e a força do casal, que ao saber da gravidez de Shirley, partem em busca de justiça e, obviamente, da guarda do neto.

Enfrentando um processo judiciário lento, no Canadá, e tentando entender o motivo da libertação de Shirley, Kate e David recebem a notícia do nascimento de Zachary com um misto de esperança – afinal o herdeiro de Andrew serve, sem dúvidas, de conforto para o casal de idosos que perdeu o gosto pela vida – e amargura – com Shirley em liberdade, eles terão que se encontrar pessoalmente com a assassina de seu filho para ter contato com seu neto, o que rende as cenas mais atordoantes do filme.
Valendo-se de uma linguagem urgente, o documentário nunca perde a força. Sem medo de expôr o que realmente aconteceu e sem a menor intenção de economizar o espectador, a câmera de Kurt Kuenne, que também assina a trilha sonora, a edição e o roteiro, chega a ser cruel e apelativa ao retornar repetidamente aos pormenores dos acontecimentos sem jamais, perder a mão ou dar brechas para um discurso exagerado.

Dear Zachary é uma experiência avassaladora, pesada, assim como a natureza dos fatos que aborda. A ousadia de Kurt Kuenne chega a ser artística, apesar de polêmica, e leva seu filme ao status de obra-prima.

Tony Montana

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