Quando a perfeição não basta

1 de Março de 2009 @ 23:47 - Geral
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Delicatessen é perfeito em todos os sentidos: direção, roteiro, atuações, edição, trilha sonora. Mas, nem sempre, ser perfeito é o suficiente.

A história se passa em uma medonha pensão francesa, uma estrutura surreal independente em que ritmos criam outros ritmos, os acontecimentos se desdobram em efeito dominó e o destino dos habitantes depende menos de suas vontades próprias que da fatalidade de morarem onde moram.

Nesta estrutura, o importante é sobreviver. Os fins justificam os meios. A comida é escassa e, portanto, o proprietário-açougueiro coloca anúncios de emprego no jornal para atrair carne humana e manter os outros hóspedes vivos… É uma história interessante e carismática, uma criação total de Jean-Pierre Jeunet, da época em que, ele mesmo, morou sobre um açougue.

No entanto, não pude deixar de sentir uma ausência de conteúdo, como se o filme fosse uma adaptação um tanto rasa de um livro mais complexo. As belas cenas, iluminadas pelo talento do carismático Dominique Pinon, são um tanto superficiais e, ás, vezes, bobas. Belas cenas não sobrevivem por si mesmas, elas devem ser um reflexo de algo mais abstrato, algo com que tenhamos um contato instintivo e imediato.

Em Delicatessem há uma superficialidade que deriva do fato dos personagens não serem nem emblemáticos nem idiossincráticos. É um jogo de imagens que aponta para um vazio incômodo. O que é o açougueiro? É a vida? A lei da selva? O capitalismo? Pode ser e pode não ser. Talvez seja um filme para crianças, a quem o mero efeito da presença de uma figura forte é o suficiente.

Por outro lado, é sempre apaixonante ver as criações espontâneas de um diretor.

O filme é pura virtuose criativa e isso causa admiração e (como nos intermináveis solos de guitarra dos anos 80) tédio. É uma loteria: agradável para quem consegue entrar na história e sufocante para quem não se deixa levar.

Todo virtuosismo é um pouco vazio.

Wall-E

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