Louison no país das bizarrices

1 de Março de 2009 @ 23:44 - Geral
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Avaliação: cinco estrelas 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 - cinco estrelas 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

“Isso é um trabalho para A Australiana!”

Em um tempo indefinido - os televisores são antigos (em preto e branco), os equipamentos arcaicos, a comida escassa e o sol tímido - existe um edifício caindo aos pedaços. O lugar, também não sabemos exatamente qual é. Os habitantes do prédio falam francês, mas não saem de casa e não conhecem “a cidade”. O que podemos dizer é que no térreo existe um açougue, “Delicatessen”, onde os únicos clientes são os moradores do prédio, e a única carne é a de forasteiros.

É neste universo bizarro que a dupla de diretores franceses Jean-Pierre Jeunet (o mesmo diretor de “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain”) e Marc Caro (seu parceiro em outros longas, como “A Cidade das Crianças Perdidas”) constroem a sua comédia de humor negro, com pitadas de drama, romance e suspense. A dupla acerta do início ao fim: não há um só instante em o espectador não seja preso e contagiado pelo clima da película.

Aliás, classificar o clima do filme é tarefa um tanto difícil, já que várias tendências são facilmente identificadas. A fotografia é sombria e obscura, influência expressionista, e garante, junto à trilha (que merece atenção especial), suspense constante à obra. Mas também existem traços marcantes de humor no trabalho da dupla. As personagens excêntricas (como o homem sapo, os trogloditas, a suicida, a velha a fiar, etc.), os cortes ritmados com a trilha, e pequenos detalhes como os sapatos enormes de Louison (Dominique Pinon), ou a comemoração infantil da dupla de “Trogloditas” (povo revolucionário que vive nos esgotos da cidade por não se conformar com a realidade literalmente canibal da superfície) são divertidas provas do humor do filme.

Os diretores caminham por terrenos dramáticos distintos entre si, construindo um conteúdo emocionante. A sutileza na direção preenche de maneira perfeita as atuações não menos louváveis do elenco. Pinon representa de modo emocionante e é completado por Marie-Laure Dougnac. Depois de assistir ao filme, não se torna mais surpresa o fato de que Jeunet sempre convida o ator para participar de seus projetos (“Amelie”, “A cidade das crianças perdidas”, para citar dois).

Neste caso, Dominique interpreta Louison, um ex-palhaço de circo que é levado ao prédio por um anúncio de emprego no jornal “Tempos Difíceis” (olha o humor novamente), que lhe garantiria serviço leve e esporádico em troca de abrigo. O anunciante é o dono do açougue Clapet interpretado brilhantemente por Jean-Claude Dreyfus, que contrata o artista, apesar de seu porte franzino. Seu objetivo é transforma-lo em alimento, como costuma fazer com seus empregados. No entanto, a figura alegre de Louison traz algo de novo ao cotidiano do prédio. Sua presença ilumina a vida obscura do local, e, por isso, Julie Clapet (Marie-Laure Dougnac), filha de Clapet, pede para seu pai poupar o novo morador. O suspense, a partir deste momento, torna-se diegético e não diegético; a pergunta que gira entre os personagens e o espectador é a mesma: “Quando Louison vai morrer para suprir temporariamente a falta de alimento?”.

E assim a trama se desenrola com alegria, melancolia e tom crítico. Merecem destaque especial as cenas entre o protagonista e sua pretendente e, ainda mais especificamente, a cena entre Louison e as crianças (sempre representando a alegria, no filme), na escada, quando o palhaço improvisa um número com bolhas de sabão e a fumaça do cigarro de um dos meninos: a beleza e alegria do número se fundem com a melancolia e tristeza da situação dos humanos em uma época sem comida. A cena, acompanhada por música não menos tocante, emociona.

Interessante também, é que não há comida na trama, mas a ganância e as contradições humanas continuam guiando as ações de alguns. O dono do açougue, por exemplo, mata humanos para vender sua carne em troca de milho, mesmo que tenha em sua dispensa 38 sacas do alimento. Além disso reclama de modo moralista com a sua filha por usar maquiagem, como se isso fosse crime maior do que o cometido por ele próprio.

A trilha sonora é outro ponto forte da obra. Sempre no clima perfeito da cena, adicionando suspense, humor ou melancolia às imagens, a trilha é um dos principais elementos que costuram sutilmente o roteiro fantástico. Inúmeros cortes são muito bem suavizados com a utilização de ruídos ou música.

Aliás a sutileza é um dos grandes méritos do filme. Cada pequeno detalhe ajuda a emocionar o espectador. Paulatinamente, somos levados para dentro de um mundo fantástico, onde acompanhamos características não muito estranhas a este nosso, real. Há no roteiro uma forte crítica à ganância capitalista e humana. Mas o grande espaço do filme é mesmo ocupado pelo amor, o talento, e a beleza de atitudes simples e demonstrativas.

Cinco estrelas sem a menor dúvida.

Jake Blues

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