Escolher aos 50
23 de Fevereiro de 2009 @ 01:11 - GeralArquivado sob Principal, Filme da semana, Nossos Críticos, Rodrigo Frota | Link desta publicação | Enviar por e-mail
Convencionalmente, costuma-se dividir a vida em uma porção de fases típicas, pelas quais todos nós passamos. Assim, infância é a fase em que o mundo e as sensações proporcionadas por ele são absorvidas. Ainda somos brancos feito folhas pautadas, prontos para o contato com a caneta que nos dê motivo de existir. Já a adolescência é o momento de descobrir a si próprio, construir sonhos - que certamente tem relação com as vivências infantis – e fazer planos. E dessa mesma maneira geral, é muito fácil definir a maturidade e a velhice.
Existem, no entanto, sensações que não podem ser transmitidas em palavras gerais; as fases da vida tem um significado específico para cada ser humano. Nada impede um sujeito de se descobrir aos 70 anos, ou um adolescente de viver regrado por uma estabilidade atípica desta fase.
A vida de cada um se define de acordo com os sonhos de cada um, a sua expectativa e a sua maneira de buscar essa realidade desejada. Cada indivíduo tem seu tempo, sua personalidade e seu modo de viver.
Alguns sabem o que querem desde que nasceram; outros morrem sem saber. Mas existe algo que é comum a todo indivíduo sujeito da linguagem, um momento dificílimo pelo qual todo mundo passa: escolher um dos caminhos da encruzilhada. A vida de todos nós é costurada e guiada pelas escolhas que somos obrigados a fazer.
Em “The Wrestler” assistimos a uma crônica sobre a “velhice” de Randy “The Ram” Robinson (Mickey Rourke), momento em que ele vive uma crise que é conseqüência das escolhas feitas em sua juventude. Robinson é um profissional de luta livre, no fim de sua carreira, que vive na expectativa de recuperar a fama que um dia teve. Seu sucesso na juventude - obtido às custas de escolhas inconsequentes, como o abandono da filha, ou o uso exagerado de drogas e esteroides – ainda guia sua vida, como um norte, até o momento em que ele se vê obrigado a encarar o fato de que a idade já não lhe permite ser um lutador profissional. Ele tenta fugir inconscientemente dos erros que cometeu na juventude, quando um ataque cardíaco lhe dá a consciência de que esses erros foram graves e precisavam de conserto.
É nesse instante que “The Ram” tenta recomeçar, corrigir sua ausência como pai e iniciar um relacionamento estável com a única pessoa com quem tem alguma conexão: Cassidy (Marisa Tomei), uma striper do clube noturno que frequenta.
O filme é muito interessante, tem ótima direção e roteiro inteligente. As atuações de Rourke e Tomei são memoráveis e respondem às suas indicações à altura. Já Evan Rachel Wood, que vive Sthephanie, a filha de Randy, não conseguiu construir uma personagem no mesmo nível de seus colegas. Ficou muito clara a diferença entre Mickey e Rachel na cena da bronca da filha no pai. Aquele momento deixou óbvio que ela não estava tão “dentro” do filme quanto ele. Posso me surpreender, mas pelo que vi em “Thirteen”, “Across the universe” e “The Wrestler” não acredito que Evan passe, no futuro, do “não comprometeu” para o “impressionante!”; não apostaria nela para se tornar uma grande atriz.
Afora questões técnicas, acredito que o grande valor do filme está no modo como um personagem (lutador) durao e supostamente acima de questões sentimentais é humanizado. A maneira como o enredo e o diretor misturam (com linguagens que aproximam o público dos bastidores da vida de Ram) lutas na arena com conflitos afetivos do personagem traz à luz a dura realidade de quem brigou a vida inteira para se manter fazendo o que gosta, e coloca uma questão: é possível, em algum momento da nossa trajetória, optar por recomeçar do zero uma vida completamente diferente que não parece nos pertencer?
Jake Blues
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