O que mudou?

16 de Fevereiro de 2009 @ 00:29 - Geral
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A classe média é o grande alvo de observação de Arnaldo Jabor em seu primeiro longa-metragem intitulado “Opinião Pública”. E, vendo o filme no contexto atual, é interessante como podemos constatar as diferenças e semelhanças de mentalidade entre “aquela” sociedade, 41 anos atrás, e a nossa de 2009.

A princípio, afirmações como a de que algumas moças daquela época beijavam os rapazes sem gostar deles ou que o mais importante no casamento não era o amor e sim o caráter surgem como ingenuidades quase cômicas para nós. E essa ingenuidade está presente principalmente na primeira parte do documentário, pois é quando Jabor aponta sua câmera para os jovens, ainda cheios de esperanças e sonhos. Também é impressionante ver depoimentos onde valores como a honestidade e o bom caráter sejam tão bem estimados tanto nas relações pessoais, quanto como na forma de ascensão profissional.

Mas, aos poucos, a ingenuidade jovial do filme dá lugar a uma amargura crescente, conforme o ponto de vista das entrevistas passa dos jovens, aos adultos e trabalhadores frustrados. Vemos então, que apesar de algumas diferenças de comportamento social, a atitude geral da classe média mudou muito pouco nessas quatro décadas. A classe média, assim como o que se denomina como opinião pública, ainda se mantém como um mosaico de elementos distintos que juntos formam uma massa homogênea, conformista e frustrada.
A narrativa, em crescente pessimismo, nos mostra a amargura das pessoas não satisfeitas com seus cotidianos. Desde a dona de casa cansada de monotonia a aqueles que buscam na religião um sentido para suas vidas. Em uma das cenas mais fortes do filme, vemos um culto religioso no qual uma fiel afirma que deseja morrer.

Tecnicamente, “A Opinião Pública” sofre por alguns problemas enfrentados pela falta de estrutura do cinema brasileiro da época, principalmente a mixagem de som. Mas visualmente, o documentário mostra-se sempre interessante e inovador em sua linguagem, com decupagem e movimentos de câmera dinâmicos, que sempre fazem parte da construção narrativa.

Mesmo 41 anos depois de seu lançamento, “A Opinião Pública” mantém-se relevante ao retratar a classe média brasileira. Pois, mesmo hoje em dia, como o próprio Jabor afirma através da narração de Fernando Garcia, a classe média corre muito para não ficar para trás e se acomoda por não saber para onde ir.

Bob Harris

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