“Opinião pública é opinião que se publica”
16 de Fevereiro de 2009 @ 00:16 - GeralArquivado sob Principal, Filme da semana, Nossos Críticos, Rodrigo Frota | Link desta publicação | Enviar por e-mail
Decidi intitular a minha crítica com a definição genial de Millôr Fernandes porque acredito que é exatamente esta a mensagem do primeiro longa de Arnaldo Jabor. Quem forma essa tal de opinião pública? Como ela é? Como se veste, como age e, principalmente, o que realmente pensa? Foi com a idéia de responder perguntas como essas que o cineasta pegou a câmera na mão (como mandava o lema do Cinema Novo) e, sem se preocupar muito com questões técnicas, foi colher material para a sua “colagem-verdade”.
Em “Opinião Pública”, Jabor pos em foco, num momento em que a ditadura militar ainda era recente no Brasil, o pensamento e as concepções do jovem da classe média carioca. O documentário é formado por um apanhado de entrevistas sobre assuntos diversos, que buscam fazer um raio x dos anseios da classe. Mas se desenrola como um recorte crítico dos conceitos e preconceitos dos entrevistados, que simbolizavam uma parcela (teoricamente) esclarecida da população, formando as bases do que chamamos de opinião pública.
A ausência de roteiro, característica típica do cinema verdade, é suprida pela ironia com a qual o diretor expõe o seu argumento. Numa montagem que coloca lado a lado, por exemplo, cenas de uma dona de casa “dando aula” de comportamento moral(ista) a duas meninas mais novas e uma narração em off que chama a classe média de “massa de manobra” fica claro que o diretor tem um ponto: esta classe que chamamos de esclarecida tem, antes, conceitos embaçados pela manipulação político-midiática do que claros e engajados.
E é por isso que a discussão abordada na película tem grande valor político e antropológico. É muito interessante observar a malandragem ingênua do carioca dos anos 60 e constatar que nem tudo mudou no desenrolar desses anos todos. A classe retratada no documentário existe até hoje no Rio e no Brasil, com as mesmas visões.
Seria interessante, apenas, notar os pensamentos, a vestimenta e o gestual de uma parcela da população do Brasil dos anos 60. Mas Jabor foi além em sua documentação: expôs as entranhas de uma sociedade, ao retratar a sua comodidade intelectual em um momento de tamanha importância política na história de um país.
Jake Blues
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