Sujeito humano, relacionamento e costumes
9 de Fevereiro de 2009 @ 02:34 - GeralArquivado sob Principal, Filme da semana, Nossos Críticos, Rodrigo Frota | Link desta publicação | Enviar por e-mail
“People keep knowing the truth; they just get better at lying”
Existe, em “Revolutionary Road”, uma forte crítica aos costumes americanos e a um estilo de vida estável e sem preocupações. Mas muito mais do que criticar – sob o meu olhar – o filme traz reflexões. O que realmente mudaria na vida daquela família se o sonho de Paris fosse concretizado?
A fuga do tédio e do “vazio sem esperança” do subúrbio de Conneticut era, na verdade, muito mais uma necessidade neurótica de preencher a falta, do que uma concepção de vida. O tal “vazio sem esperança” existiria onde quer que o casal morasse. Pra onde quer que eles fossem, carregariam consigo uma decepção que todo mundo se dá conta que carrega, em algum momento na vida: o sonho é sempre mais fácil do que a realidade.
A realidade decepciona, porque é feita de conquistas e frustrações; de prazer e de desprazer, mesmo quando o sonho é atingido. Quer aventureira e imprevisível, quer estável e rotineira, a vida nunca será perfeita, exatamente porque não conseguimos sustentar a leveza (e eu abro aspas aqui) de uma vida sem sofrimento. Nós mesmos criamos motivos para sofrer.
A forma de lidar com as frustrações é que transforma as pessoas no que elas são. E de que mais o filme trata, senão da forma como cada um lida com o seu próprio sonho frustrado em um relacionamento? April, que antes depositava no marido toda a esperança de viver uma vida interessante, aventurar-se pelo mundo e concretizar sonhos, acaba por depositar nele toda a culpa de sua frustração, de ser convencional, de ter família e vida igual a de todo mundo.
Ele, por outro lado,vive frustrado por seguir os passos do pai, por não ter coragem de correr riscos (como sempre pensou que faria) e por ser casado com alguém que lhe joga essas verdades íntimas na cara diariamente.
“Revolutionary Road” merece cinco estrelas porque tem ótimos atores: Kate Winslet passeia pelo enredo de maneira segura, sem permitir que nenhum detalhe lhe leve para fora dos dilemas de sua personagem. Tanto no silêncio de uma reflexão quanto na gritaria de uma discussão, a atriz faz-se notar pelo talento e pela forma como transmite o drama vivido por April Wheeler.
Leonardo DiCaprio também convence, apesar de não se destacar. O ator segura o filme nas cenas em que é exigido, mas não consegue repetir o nível que vinha mantendo em seus últimos trabalhos. Em mais de uma cena a gente sente um deja vu, como se já conhecêssemos aquele personagem (o que conhecemos, na verdade, é aquela atuação).
O filme é perfeito também porque baseia-se em enredo interessante e roteiro sem falhas. A história contada, desde a apresentação das personagens até o desenrolar de suas vidas prende o espectador sem um único momento de dúvida, de desinteresse ou de desconfiança.
Também o diretor é merecedor de aplausos. Sam Mendes deixa sua marca ao permitir que o filme seja maior do que si, uma vez que conta a história aliando simplicidade e completude, sem precisar de muito floreio para destacar cada personagem e liberar os atores para crescerem com o roteiro. Sua direção é impecável exatamente porque não se destaca. Mendes teve a humildade de se fazer menor, e é por isso que merece elogios: por perceber que nada deveria ser maior do que a história em si e do que as questões que ela coloca.
E é a história, na minha opinião, a principal qualidade do filme. Não por ser mirabolante, cheia de reviravoltas e surpreendente, mas especialmente pelas discussões que aborda.
Revolutionary Road é perfeito porque é perspicaz e pertinente. Muito mais do que uma crítica a um estilo de vida e a uma sociedade, o filme traz uma reflexão sobre o sujeito humano, sobre relacionamentos humanos e sobre as crises geradas por ambos.
Jake Blues
1 Comentário »
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O “vazio sem esperança” era nitidamente do contexto em que o casal vivia, o doidinho(o mais lúcido) concordava com isso e se manifestou quando o casal mudou de idéia em relação a viagem.
O filme trata do relacionamento saturado do casal,contaminado por esse vazio assim como os outros da trama.
A notícia da viagem assustou os vizinhos que estavam também insatisfeitos com a vida confortável e chata
As traições foram tentativas de fuga que não solucionam o problema,a viagem era o encontro com o inesperado , e o inesperado assusta mas é essensial.O filme seria mais divertido se eles tivessem ido…
O drama é clichê , assim como o ideal vendido de felicidade é…essa crítica é muito presente em “beleza americana”..
A crítica em relação ao papel da mulher e do homem na sociedade também está presente,ela era a mais triste porque se via reprimida o tempo todo em seus desejos.. pareceu absurda para o vizinho , ela sustentar o casal na França…
Belo filme! que soube retratar com sensibilidade assuntos comuns,e provocar a reflexão
Comentário de Pedro Ivo — 9 de Fevereiro de 2009 #