O Império da técnica

2 de Fevereiro de 2009 @ 00:15 - Geral
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Avaliação: tres estrelas 1 - tres estrelas 1

Um filme, para que seja bom, depende de muitos fatores. Mínimos detalhes, às vezes imperceptíveis para o espectador menos atento, devem ser pensados e repensados para que um minucioso mundo narrativo seja construído e o público seja levado para dentro da história. Nessa tarefa, todo mundo toma responsabilidade, desde o figurante até o produtor do filme. Porém, não há dúvida de que o diretor e o elenco carregam a maior parte deste peso sozinhos.

Exatamente por isso que me entusiasmei quando soube da escolha do filme desta semana. A parceria entre um dos melhores atores do cinema atual e um diretor de talento inquestionável não poderia gerar nada de ruim. De quebra, veria Michelle Pfeiffer e ainda Winona Ryder, na atuação que lhe rendeu nomeação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante em 94.

Minha expectativa era a melhor e eu tinha certeza de que não me decepcionaria.

O filme é tecnicamente (quase) perfeito. Excetuando-se a dublagem em italiano da Codessa Ellen Olenska (personagem de Pfeiffer) e um ou outro pequeno detalhe na edição, nada pode ser dito quanto à técnica da super produção.

Arte e fotografia, aliados de maneira impecável, construíram uma Nova Iorque do final do século XIX muito real e convincente aos olhos do espectador. E Martin Scorsese costura o longa (muito longa, diga-se de passagem) com sucesso utilizando-se, muitas vezes, destes recursos.

Vale destacar, também, o domínio das técnicas de atuação por parte de Day-Lewis. O modo como o ator transmite sentimentos através de pequenas mudanças de expressão, seja no olhar, na boca, na voz, ou no gestual, é impressionante aula para qualquer aspirante ao sucesso na profissão. Nenhuma surpresa aí. Daniel nunca repetiu uma atuação, sempre construindo profundamente seus personagens.

Surpreendente para mim foram as outras aulas, a de Michelle Pfeiffer no papel da liberal condessa Olenska, e a de falta de oportunismo por parte da Academia, ao nomear a sem graça Winona por sua atuação.

É bem verdade que a condessa - liberal, exuberante, à frente de seu tempo - é muito mais interessante do que May Welland, sua prima, uma bonequinha moldada pelos costumes tradicionalistas e hipócritas da elite novaiorquina da época. Ainda assim, fica claro o quanto falta para Winona – que perde as poucas chances de brilhar que tem optando pela segurança, em detrimento do risco - e o quanto sobra para Pfeiffer que transborda emoções com pequenos olhares.

A sensação que tive ao acabar o filme foi a de que ele não chegou lá. As dificuldades de se adaptar, para o cinema, um roteiro de obra literária são conhecidas e mais uma vez aqui tive a sensação (mesmo sem ter lido o romance homônimo de Edith Wharton) que o filme tenta em vão usar imagens para substituir palavras.

Não tenho dúvidas de que o romance é muito mais rico e divertido do que o filme. Isto porque a literatura e o cinema são formas de expressão bastante distintas, apesar de suas ligações. A descrição visual de uma cena pode, pelo modo como foi feita, ser parte primordial no deleite de quem lê um livro; e esse mesmo efeito não acontece na sétima arte com o espectador comum. Uma boa descrição visual no cinema torna-se sinônimo de “super produção” e não é motivo de tanta admiração, já que o dinheiro (e não a criatividade, como na literatura) toma grande parte dos méritos.

E foi esse o sentimento que me deixou “In the age of innocence”. As discussões sobre o machismo, o moralismo, o tradicionalismo e a falta de originalidade da Nova Iorque da época que o filme coloca em foco são pertinentes, mas perdem espaço no seu longo desenrolar para detalhes técnicos e um roteiro mal amarrado. O mais perto que cheguei de sentir alguma emoção foi quando houve uma pequena sugestão de um possível assassinato no triangulo amoroso protagonista. Mas essa sugestão não passa de uma ameaça, e logo voltamos ao império da técnica.

A dupla Archer (Day-Lewis) e Ellen Olenska rende ótimas cenas, e segura, unida a Scorsese, o filme até o final. Ainda assim, não posso dizer que minhas expectativas foram completamente atendidas.

Jake Blues

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